domingo, 29 de maio de 2016

7 filmes clássicos contra a cultura do estupro


Oi noviçxs,  no post de hoje eu vou falar um pouquinho sobre alguns filmes clássicos que são muito bons e mesmo décadas atrás, quando ainda era muito tabu tratar de temas mais ousados e polêmicos como o estupro e tudo mais, aproveitando o quanto o feminismo está em debate (e DEVE continuar assim), algumas obras trataram do assunto como mote principal de suas tramas, desde mais veladamente como de forma mais explícita. Como os filmes clássicos da Old Hollywood mesmo vão até mais ou menos os anos 60, que dali em diante as abordagem já seriam mais fáceis e abertas (como o estupro no filme oitentista Acusados, com Jodie Foster) sobre esse e muitos outros assuntos  na sociedade, mesmo nos anos 30 antes do Código Hays e principalmente nos anos 50 em diante, quando já começavam a ser abordadas temáticas como a juventude rebelde, o mundo do pós-guerra e críticas sociais pertinentes. Claro, há muitos filmes e eu não lembrei de todos, até peguei alguns que me sugeriram, e alguns que eu gosto muito e são pouco conhecidos, e quero aproveitar o espaço do blog justamente para semear um pouco do que eu conheço para o mundo. Claro, alguns filmes propõem um debate mais profundo sobre o tema, alguns apenas o abordam de relance e timidamente, mas de maneira geral é sempre interessante vermos o lado obscuro do ser humano  e da sociedade representado em um filme, ainda mais nos clássicos que quase sempre de ''inocentes'' não tem nada. Além de ser muito legal poder indicar alguns filmes bons para meus noviços assistirem.

Então vamos lá, em ordem cronológica:


CHANTAGEM E CONFISSÃO (Blackmail, 1929)





Blackmail já entra na história do cinema por ser o primeiro filme britânico (e de Hitchcock) com som! Mesmo no começo de cenas mudas, de repente os personagens começam a falar, além de nesse filme já termos o Hitchcock fazendo uma de suas ilustres aparições dentro do filme! 

Bem, o filme trata de uma filha de um lojista que namora um oficial da Scotland Yard. Mas, quando ela acha que o namorado está dando muita atenção ao trabalho e nenhuma para a relação deles, ela resolve secretamente se encontrar com um artista. Ele pede para pintá-la num quadro e ela, inocente, aceita. Mas o ''artista'' fica cada vez mais insolente e resolve levá-la à força para a cama. A moça entra em desespero e para se defender acaba o matando com uma faca. 



E será logo o seu namorado da polícia que irá até o apartamento investigar o caso, e acaba encontrando uma das luvas que a namorada estava usando na noite anterior. Ele resolve questionar a moça, e ao mesmo tempo, um homem que a viu saindo do apartamento na noite anterior e tem a outra luva que ela esqueceu, resolve chantageá-la. 

Esse é um dos melhores filmes do Hitchcock durante sua fase silenciosa, e já nele podemos ver muito do que o mestre do suspense viria a abordar na sua fase americana com seus filmes mais famosos. Aqui temos tentativa de estupro, assassinato, corrupção da polícia e dissimulação por amor e dinheiro,  e falando isso estou simplificando bastante. A bela atriz tcheca Anny Ondra (na foto com Hitch) no mesmo ano também participou do que seria o último filme mudo de Hitchcock: O Ilhéu (The Manxman).






LEVADA À FORÇA (The Story of Temple Drake, 1933)





Esse filme foi baseado num romance polêmico chamado Santuário, de William Faulkner, autor esse sempre com abordagens ousadas sobre o sul dos Estados Unidos. Estrelado por Miriam Hopkins, é um dos exemplos mais ousados do período anterior ao Código Hays que viria a censurar os filmes (por isso o nome ''pre code''). No filme, Miriam é a bela e mimada jovem sulista Temple Drake, que durante uma festa sai com seu pretendente de carro mas os dois acabam indo parar na casa de um contrabandista de bebidas cheia de tipos barra pesada, em especial o degenerado Trigger (Jack La Rue). Temple é presa em um celeiro protegido por um jovem deficiente, e durante a noite Trigger, bêbado, mata o garoto e estupra Temple numa sequência impactante e tenebrosa. 


Depois disso, Trigger a leva para um prostíbulo e faz dela sua marionete, e então mais tretas vão acontecer (não vou contar tudo), até o final durante o julgamento, onde Temple, mesmo sob risco de virar uma ''mulher marcada'', conta tudo o que lhe aconteceu. 

George Raft recusou o papel do estuprador porque imaginava que sua carreira iria acabar com um papel controverso como esse. Jack La Rue fez muito bem o papel, tem uma expressão super cínica e medonha.


Os temas abordados, como o estupro, os desvirtuamentos de valores éticos e a forma liberal de mostrar um mundo decadente e vil, levaram essa pequena obra-prima a ficar proibida e fora de circulação por muitos anos. Hoje já é reconhecido por muitos como um dos melhores exemplares da era Pre-Code, e talvez o melhor desempenho de Miriam Hopkins. Isso mesmo, aquela atriz famosa pela treta que teve com Bette Davis durante os filmes Eu Soube Amar (The Old Maid) e principalmente Uma Velha Amizade (Old Acquaintance), quando Davis numa cena chacoalha Miriam com força. Mas tretas a parte, Miriam é uma excelente atriz, subestimadíssima, além de muito bonita! 


O filme está no Youtube em várias partes e se você der uma boa fuçada, vai encontrá-lo para download.




Para quem se interessou , leia um pouco mais aqui no blog Crítica Retrô: http://criticaretro.blogspot.com.br/2015/04/levada-forca-story-of-temple-drake-1933.html 


BELINDA (Johnny Belinda, 1948)





Outro filme clássico que trataria de estupro seria o ''novelão'' Johnny Belinda, de 1948. Num vilarejo caiçara vive a jovem Belinda, vivida por Jane Wyman. Belinda é surda-muda, incompreendida por todos ao seu redor, mas encanta o médico Robert (Lew Ayres), que entende que Belinda é muito mais inteligente e capaz do que a população pensa. Mas numa noite, Belinda é estuprada por Locky (Stephem McNally) , um residente local. Belinda acaba ficando grávida de Locky, mas todos dacidade pensam que o filho é de Robert, que passou muito tempo com Belinda. A moça, sem poder falar, vive sem poder contar a ninguém o que lhe aconteceu. Ela dá à luz ao filho, Johnny, mas Locky faz a cabeça da cidade inteira ao tentar convence-los de que Belinda não é capaz de cuidar da criança, e quer ficar com o bebê a qualquer custo (sem admitir que é o pai). Obstinada a ficar com a criança, Belinda mata Locky durante uma briga, e acaba indo parar no tribunal.



O filme rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Jane Wyman, que deu o discurso mais curto da história na categoria: 

''Eu ganhei este prêmio mantendo a boca fechada e acho que vou fazê-lo novamente."


Com Loretta Young, vencedora anterior pelo filme Ambiciosa (The Farmer's Daughter)

O filme está disponível online e legendado no site Memocine (que é muito bom por sinal e tem um acervo maravilhoso, corram!)

ACUSADA! (The Accused, 1949)




Em um de seus melhores filmes, Loretta Young é uma professora de psicologia que acaba matando por acidente um de seus alunos quando este tenta estuprá-la no meio da estrada. 


Desesperada, ela faz parecer que o jovem morreu ao cair do penhasco, mas ainda assim acaba indo presa pela polícia. Enquanto aguarda o julgamento, para complicar mais, Loretta acaba se apaixonando por seu advogado (Robert Cummings), que por coincidência era o tutor do jovem morto. Ela tenta sustentar a sua versão do ocorrido mas, acusada de assassinato, fica cada vez mais difícil esconder o que realmente aconteceu. Lembrando do Blackmail e aqui, é interessante notar como elas apenas chegaram ao assassinato porque era a única forma de evitarem ser estupradas, e além disso elas ainda tem medo de contar a verdade pois a sociedade constantemente vê a mulher como ''culpada'', podem ficar ''mal faladas'' (sim, até hoje muita coisa não mudou em nada, tem muitos patrulhinhas da moral e dos bons costumes por aí) e ainda podem ser condenadas como assassinas frias, quando elas estavam só tentaram se defender. Mas é claro, as pessoas preferem julgar, tirar proveito e apontar o dedo.



O MUNDO É CULPADO (Outrage, 1950)




Em 1950, a atriz Ida Lupino se aventurou como roteirista e diretora do fiilme O Mundo é Culpado (Outrage). Esse filme B foi um dos primeiros filmes a tratar do estupro como tema central depois do Código censor de Produção em Hollywood há anos vigente pela ''decência'' vir a ruir. 

No longa, uma jovem mulher vivida por Mala Powers é estuprada numa noite que voltava do trabalho. A moça, chamada Ann, fica completamente traumatizada sem qualquer apoio da sociedade. 



Deslocada e em desespero por não conseguir voltar à sua vida normal, Ann foge do trabalho, da família e do seu noivo para bem longe e tenta reconstruir sua vida. Um jovem clérigo (Tod Andrews) ajuda Ann a conseguir trabalho e um lar, e por um tempo ela consegue viver em paz, mas quando um colega a corteja, Ann relembra do trauma que viveu e, desesperada, bate nele com força e acaba no tribunal. Seu amigo clérigo tenta, durante o julgamento, mostrar que Ann não tem culpa por tudo o que passou, e que como o título em português diz, a sociedade é a culpada. E Ann vê que não adianta fugir, e não poderá viver com o clérigo bonitão para sempre; ela terá que enfrentar o mundo.


O filme está disponível no Youtube (sem legendas), mas não é difícil de encontrar! E aproveito para indicar outros dois filmes ótimos da Ida Lupino, que além de ótima atriz é uma diretora muito boa! São O Mundo Odeia-Me (The Hitchhiker) e O Bígamo (The Bigamist), ambos de 1953 e disponíveis online e para download internet afora =))

 



UMA RUA CHAMADA PECADO (A Streetcar Named Desire, 1951)



Esse é de longe um dos melhores filmes de todos os tempos (no meu Top 10 disparado).  Poderia fazer um post inteiro sobre ele, mas vou tentar resumir. Baseado na peça de Tennessee Williams, o longa trata da bela sulista Blanche Dubois (fantástica Vivien Leigh) que viaja para a casa de sua irmã Stella (Kim Hunter) em Nova Orleans. Blanche revela que veio passar um tempo com a irmã porque perdeu a antiga propriedade da família. A tensão começa quando ela entra em confronto como o marido de Stella, o grosseirão Stanley (Marlon Brando inesquecível). Blanche ''não quer realismo'', ela quer magia! Ela esconde sua decadência com mentiras incontáveis e relembrando seu passado glorioso que já não existe mais. Blanche é o retrato de um ser delicado que o mundo real e cruel faz questão de destruir. A realidade está personificada em Stanley que é rude e animalesco, total antítese da beleza e glória que Blanche idealiza. 




O clima de tensão entre Blanche e Stanley cresce com o desenrolar do filme. Stanley fica cada vez mais rude com Blanche, e por um questão de orgulho e para mostrar que é ''quem realmente manda'' ali, ele quer que a cunhada desapareça, pois ela desestabiliza o local que ele antes dominava. Num confronto fatal entre os dois, com Blanche já tomada pela loucura, Stanley resolve abusar da cunhada, levando-a à força para a cama, e no texto original da peça ele ainda diz algo assim: ''Isso estava para acontecer desde o começo''. Depois do ocorrido, Blanche perde completamente o contato com a realidade. Stanley é o machismo puro que estupra não pelo sexo em si, mas para mostrar o seu poder, e destrói a sua vítima sem dó. Infelizmente, devido à forte censura vigente na época, muito da peça foi limitado (a cena do estupro por exemplo é apenas sugerida com a quebra de uma garrafa que Blanche usava para se defender partindo o espelho que reflete Blanche sem sentidos, e em seguida já de dia um plano de uma mangueira limpando a calçada da rua), mas Elia Kazan conseguiu fazer um filme poderoso e fiel ao texto de Williams.

Não vou falar porque perde a graça para quem não viu (aliás já soltei um spoiler enorme, grito). Então faça um favor para si mesmo e VEJA !!!! 



NA VORAGEM DE UMA PAIXÃO (The Unguarded Moment, 1956)




Esse thriller esquecido dos anos 50, além da temática, já é imperdível por dois motivos: Esther Williams reinando em um de seus poucos papéis fora da piscina. Sim, a sereia da MGM em um filme dramático não musical !! A prova viva de que ela se virava muito bem fora da água e dos números musicais. E outra: a história que baseou o filme foi escrita pela atriz Rosalind Russell ! Ou seja: WHO RUN THE WORLD ? GIRLS.


Esther interpreta Lois, uma professora de música que numa noite é violentada por um jovem dentro da escola (essa é especialmente para os que falam que ninguém é estuprada na escola etc). Na mesma cidade uma moça já havia sido morta misteriosamente perto da escola, e Lois vinha recebendo vários bilhetes obscenos e ameaçadores, então sabendo se tratar de um estudante resolveu ir até o seu encontro para tentar conversar, mas acabou atacada, e por sorte, consegue escapar e ir até a polícia. 


Apesar do ocorrido (o estupro não chega a acontecer ) Lois acredita que o rapaz é só um garoto problemático e ainda acredita que pode ajudá-lo. Depois Lois descobre que o rapaz é Leonard (John Saxon), um de seus alunos, mas ao contar sua versão para a diretoria, Leonard nega tudo, e Lois ainda tenta dialogar com o garoto, sem sucesso. 


Rumores correm de que Lois estaria seduzindo o rapaz, e os alunos passam a zombar dela e a diretoria pensa em afastá-la. O problema se torna maior quando Lois resolve falar com o pai do garoto, Mr. Bennett (Edward Andrews), um homem amargo que desconta todas suas frustrações no filho Leonard, que sofre pelas pressões do pai em fazer dele um garoto prodígio. Mesmo sabendo que o filho faz coisas erradas, o pai encobre tudo, e se o filho não for o garoto exemplar que ele o pressiona ser, ele vai destruí-lo.


Tendo o equilíbrio delicado da sua reputação em risco, o pai do garoto resolve fazer de tudo para colocar a sociedade contra Lois, dizendo que ela é uma mulher depravada que seduziu seu filho. E ela com a ajuda do tenente Harry (George Nader) tentará provar sua versão e conseguir fazer Leonard tomar consciência de seus atos e se livrar da figura repressora do pai austero. 


Leonard hesita e pensa em contar a verdade, mas o senhor Bennett quer tirar Lois de seu caminho custe o que custar, e se mostra um homem cada vez mais machista, perigoso e doentio. Não vou mais contar nada, risos, ASSISTAM ! O filme poderia ter ousado mais em alguns pontos e ficado menos no romance meloso (apesar de eu shippar) da Esther com o policial, mas em geral é um filme que merece mais reconhecimento! 



A CALDEIRA DO DIABO (Peyton Place, 1957)



E por fim, esse filme controverso que é A Caldeira do Diabo (o nome já é bem sugestivo). Antes de produções como Twin Peaks temos aqui uma pacata cidade da Nova Inglaterra, chamada Peyton Place, onde nada nem ninguém é o que aparenta. O filme fez escola sobre melodramas hollywoodianos ao mostrar a hipocrisia reinante em uma pequena cidade do interior (que poderia ser em qualquer lugar do mundo) cheia de igrejas, fofocas e pessoas pseudo-moralistas que escondem segredos como adultério, suicídio e estupro. Os habitantes da cidade ''perfeita'' são cheios de si e tentam passar uma imagem falsa para esconder seus segredos obscuros. Os pais, cheios de moralismo, repreendem os filhos por agirem do mesmo jeito que eles agiam no passado e agora tentam esconder sob fachada de famílias perfeitas. A estrela do filme é Lana Turner, rainha de melodramas como o Imitação da Vida e que viveria um drama na vida real pouco tempo depois quando sua filha assassinou o gângster Johnny Stompanato, amante de Lana na época que a ameaçava de morte. No filme Lana é uma mãe viúva, vista como ''respeitável'' por todos, mas esconde coisas sobre seu passado, e um dia acaba revelando tudo para sua filha que é alvo das fofocas da cidade. Sua filha acaba fugindo de casa, mas acaba voltando tempos depois para acertar as contas com a mãe e a cidade.

O ápice do filme é quando uma jovem, amiga da filha de Lana, vai ao tribunal depois de confessar um crime. A pressão é enorme, e ela confessa que havia sido estuprada pelo padrasto abusivo e alcoólatra. Com o julgamento e a verdade vindo à tona ao longo do filme, as máscaras de todos da cidade vão caindo. 


Não vou contar mais porque são duas horas e meia de tretas sem fim. O best seller que baseou o livro vendeu quarenta mil exemplares em apenas dez dias! Ou seja, faça como a Cher e deleite-se com as intrigas de Peyton Place! 

O filme está disponível em DVD pela Fox, na internet e volta e meia passa no Telecine Cult. 

And that's all folks! A luta contra a cultura estupro continua, e vendo esses filmes a gente percebe como, apesar de muitos avanços, ainda há muito o que mudar na mentalidade das pessoas ( muitos moralistinhas de hoje parecem saídos dos anos 50 para baixo) e como o machismo e a hipocrisia ainda imperam no mundo em que vivemos. Muita gente já escreveu coisa bem melhor do que eu nos últimos dias sobre o assunto, então eu fico aqui com a recomendação dos filmes e que tenha ficado dado o recado de que estupro não é legal e que a sociedade lute contra os agressores, e não contra a vítima. E que o debate que está havendo continue e faça as pessoas mudarem sua forma de pensar. Eu realmente espero que tragédias e mortes não tenham que acontecer para que as pessoas parem para pensar: que elas pensem agora, e poupem mais vítimas. Em suma: A CULPA NÃO É A DA MULHER, ELA SE VESTE COMO QUISER, ELA FAZ O QUE ELA QUISER E PONTO FINAL. Joan Crawford fechando com chave de ouro o meu post: 


Bye bye, people! Até a próxima ♥ Bons filmes e NÃO À CULTURA DO ESTUPRO! MACHISTAS NÃO PASSARÃO! xo


domingo, 22 de maio de 2016

Judy Garland: Lembranças além do arco-íris




Vim rapidinho só para compartilhar uma coisa que me deixou em pedaços. Estava eu no Twitter e postaram uma foto da última casa onde Judy Garland viveu. Fica no número 4 de Cadogan Lane, em Belgrávria SW1, Londres. A casa infelizmente foi demolida, e isso foi o que restou. Olhem as lindas homenagens na madeira :')






O endereço foi seu último lar, junto ao seu último marido, Mickey Deans. Eles se casaram em março de 1969 em Londres. Judy então fez no fim do mês seu último show, em Copenhage. O casal viveria apenas alguns meses juntos, e seria Deans que encontraria Judy já sem vida no banheiro, após uma overdose acidental de barbitúricos. 






A vida de Judy Garland foi marcada por altos e baixos. Começou a carreira muito jovem, e viveu complexada pelos executivos do cinema a acharem feia e gorda (!), e junto com as longas jornadas de trabalho ela acabou dependente de medicamentos, vício que a acompanhou durante toda a vida. Ah Dorothy, quantas Bruxas Más do Oeste não encontrou durante sua vida, e quantas ainda assolam o mundo...

ESSE BEBÊ É FEIO ONDE, PELO AMOR DE DEUS ??? Uma bonequinha, isso sim <3


Da carreira inicial da Judy, eu gosto muito dos filmes com o Mickey Rooney (apesar de serem quase todos iguais, eles sempre querem fazer um show na Broadway risos). O meu favorito é o fofo Sangue de Artista (Babes in Arms). Me dá nostalgia... uns filmes inocentes com músicas legais e atores tão carismáticos.



Já adulta, uma tumultuada vida pessoal, casamentos difíceis, uma verdadeira montanha russa tanto no trabalho quanto na vida, mas sempre cheia de vida agraciando as telas e o mundo com seu talento. Seu último filme, Na Glória a Amargura (I Could Go On Singing), mesmo que não autobiográfico propriamente, mostra uma Judy mais real e logo a vida tumultuada de uma cantora que tenta conciliar o trabalho com a vida pessoal ( o filme está em DVD e também disponível no Youtube, também conta com Dirk Bogarde no elenco). O canto de cisne emociona, e muito. Há uma parte que ela chega atrasada no show, brinca, faz piada, a plateia está azeda, e ali na frente de uma multidão, tão humana na sua fragilidade, e aquela mesma pequena grande mulher quando solta sua voz encanta a todos, ilumina aquele enorme palco solitário e mostra a verdadeira magia do show business. Uma artista completa que continua encantando novas gerações de fãs, com um legado (e um coração) de ouro. As cortinas vermelhas se fechariam, mas ela continua a cantar, para sempre.



Judy sempre é lembrada pelos musicais, como O Mágico de Oz, mas também soube mostrar que era uma ótima atriz e podia fazer dramas tão bem quanto os filmes musicais. No mesmo ano ela fez um drama muito bom com Burt Lancaster, numa produção de Stanley Kramer, dirigido por John Cassavetes, chamado Minha Esperança é Você. Um filme sensível sobre uma escola de crianças especiais, onde Judy, uma professora de música, se encanta com uma criança autista nunca visitada pelos pais, e entra em confronto com os métodos da escola e o preconceito da sociedade contra os deficientes. 



Para não esquecer também sua notável participação, junto a um elenco de peso, no filme Julgamento em Nuremberg, baseado em fatos reais sobre o julgamento de criminosos nazistas após a Segunda Guerra. A busca pela verdade quando muitos já queriam esquecer.


E em um dos meus preferidos da era de ouro é O Ponteiro da Saudade (The Clock) de 1945. Um filme muito sensível sobre um soldado (Robert Walker, de Pacto Sinistro) que aproveita dois dias livre em Nova York e acaba encontrando Judy no meio do caminho, os dois se apaixonam e vivem diversas aventuras pela cidade, e como ele tem que partir de volta para o exército, eles tem que correr contra o tempo para conseguir se casar. É um filme muito bonito e singelo que merece ser mais lembrado. 




Vincente Minnelli havia dirigido o filme, e também dirigiu Judy em O Pirata (sempre bom quando ela se junta com Gene Kelly, e os beijos técnicos super de língua Lol) e em Agora Seremos Felizes, um dos filmes que Judy está mais radiante, dizem que de amor por Vincente, já que os dois se apaixonaram durante as filmagens e da relação nasceria a filha, Liza Minnelli. Como não amar The Trolley Song (só pra citar uma) ? 

PS: nunca vou perdoar a Sarah Jessica Parker por desligar a televisão que passava Agora Seremos Felizes logo nessa cena, numa parte do filme de Sex and the City. E ainda para ficar pensando em homem? Me poupe, Carrie. 



Parênteses: a pequena Liza depois faria uma pequena participação, ainda criança, no musical A Noiva Desconhecida (In the Good Old Summertime) estrelado pela mãe junto com Van Johnson. :)



Nos anos 50, Judy fez um retorno triunfal para as telas, após um período turbulento fora das telas, com Nasce uma Estrela. Apesar de pessoalmente preferir a versão original com Janet Gaynor (que passava bastante no canal Futura), Judy Garland é a verdadeira estrela do show, canta, dança, atua e faz ainda mais um pouco nesse que é um dos melhores exemplos de musicais da antiga Hollywood. O Oscar, entretanto, preferiu dar o prêmio de Melhor Atriz para Grace Kelly, que também não estava nada mal num papel ''gente como a gente'' no drama Amar é Sofrer (The Country Girl). Até hoje a premiação é contestada entre os fãs, mas a performance de Judy permanece marcante e inesquecível. 

Entre problemas de saúde, relacionamentos, ausências, e suspensões do estúdio, ficou de fora de filmes como Bonita e Valente (substituída por Betty Hutton), Ciúme Sinal de Amor (por Ginger Rogers) e de O Vale das Bonecas nos anos 60 quando foi demitida e substituída por Susan Hayward; e teve uma breve mas não menos importante carreira na tv com o The Judy Garland Show, com diversas performances musicais inesquecíveis, além do humor único de Judy.



Entretanto, em 1961 sua performance no Carnegie Hall, uma espécie de retorno triunfal, foi considerada ''a maior noite do show business''. E não pararia por aí, fazendo turnê e até shows com as filhas Liza e Lorna Luft. 

Outro parênteses: Judy também dublaria A Gata dos Meus Sonhos, em inglês Gay Purr-ee, uma animação adorável sobre uma gatinha da fazenda que sonha com o glamour de Paris mas quando chega lá acaba em grandes apuros, e só o gato do campo que ela desprezava poderá lhe salvar. Preciso nem dizer que os dois caem de amores um pelo outro.


Enfim, aproveitei o gancho para dar uma pequena navegada pela carreira dessa atriz que eu tanto amo, mas ainda preciso me aprofundar muito mais na sua biografia e carreira (preciso ler alguma biografia) para discorrer mais sobre ela, o que eu deixo para uma próxima. Fica minha tristeza por ver a casa onde viveu e morreu um ídolo ser assim demolida. 


Vários fãs foram até sua casa, sentiram a energia de estar no mesmo cômodo que a deusa esteve. O post it da foto acima foi colocado por um fã, e mesmo meses depois, continuou lá, intacto (!). Não importa quanto o tempo passe, a emoção sempre fica, e o brilho da estrela continua iluminando nossa vida. Que ela tenha encontrado a paz que não encontrou em vida, sem nunca deixar de lado o grande e poderoso amor que moveu sua vida e a mantem eterna nos nossos corações. Como alguém disse no seu velório, ''ela se consumiu''. 


E o que fica disso tudo? Sei lá. Mais um capítulo de como a vida é uma merda, as pessoas legais morrem cedo enquanto os merdas fazem hora na Terra, e lembro das palavras de uma moça que comentou lá na página do Face, que tanto como historiadora e como fã se entristeceu em ver um prédio praticamente histórico ir assim abaixo, tão odioso pode ser o crescimento frenético dos centros urbanos, o homem que passa por cima de tudo sem dó, e mais uma parte de todo um passado desaparecendo para sempre, mesmo que só fisicamente, nunca da mente ou do coração. As pessoas são um lixo. Mas sim, claro, a vida vale a pena ser vivida, e ao máximo. Poderia fazer uma reflexão filosófica, mas depois desse mood deprê que eu deixei, acho que o número de Casa Comida e Carinho (Summer Stock, 1950) fala mais do que eu poderia dizer. Do céu da Golden Age, it's Judy fucking Garland <3

FORGET YOUR TROUBLES, C'MON GET HAPPY!! 




Descanse em paz, querida Judy. Ficam aqui algumas lembranças de Além do Arco-Íris ♥ 



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Mais atual do que nunca, Rede de Intrigas completa 40 anos



Em tempos de golpe midiático, nada melhor do que ver bons filmes sobre a nossa própria realidade. Pois muito que bem, depois de um tempo sem postar, eu aproveito o meu embalo com uns posts na página do Face sobre esse filme e agora escrevo um pouco mais sobre esse filmaço que eu considero um dos melhores que já vi na vida. Como alguns costumam falar quando analisam um filme, eu considero esse um exemplar semelhante a um relógio: cada peça, cada engrenagem tem o seu papel e seu valor, e todas fazem o seu trabalho maravilhosamente bem, criando uma conjunto único. Eu penso assim também sobre muitos filmes, como por exemplo o clássico A Malvada, que mesmo tendo temática bem diferente desse aqui mas só para ilustrar: eu acho um filme perfeito em todos os detalhes, desde o elenco primoroso até roteiro, direção e diálogos memoráveis. Aqui  também o roteiro, a direção, os atores e os diálogos mordazes juntos resultam nessa obra-prima que é Rede de intrigas. Não quero pagar de crítica super séria e nem quero fazer uma análise profunda, só vou discorrer um pouco sobre o porquê de eu achar esse filme tão incrível e importante, ainda mais hoje em dia e especialmente na época que estamos vivendo agora. 


Como eu fiz uma comparação meio tosca com um relógio, vamos meio que desmontar tudo e ir vendo cada parte desse filme para entende-lo como um todo. Eu assisti o filme há um tempinho, então talvez uma coisa ou outra eu não lembre bem etc mas vou fazer o meu melhor. Eu assisti há muitos anos pela primeira vez no TCM enquanto ele ainda passava filmes que poderíamos chamar de clássicos (mesmo esse sendo já dos anos 70 e talvez um dos últimos exemplares da New Hollywood e toda aquela rebeldia dos anos 60 que acabaria no fim da década de 70 que se aproximava). Tive o prazer de revê-lo há pouco mais de um ano durante a mostra Easy Riders que teve no CCBB justamente sobre a New Hollywood. Desde os anos 50 podemos notar que a verdadeira Era de Ouro de Hollywood já entrava em decadência. Os astros e divas dos anos 20, 30 e 40 já viviam um certo ocaso em suas carreiras, e os filmes já se mostravam diferentes, com temáticas mais ousadas. Muitos astros se aposentaram, alguns continuaram fazendo filmes com premissas ultrapassadas, outros se adaptaram aos novos tempos e faziam filmes mais alternativos, outros faziam filmes B pavorosos, ou um pouco de tudo isso. O certo é que nos anos 60 e 70 já nos deparamos com uma Hollywood mais ousada, que teria brotado daquela rebeldia da Juventude transviada simbolizada por James Dean ou pelo Selvagem de Marlon Brando, sem falar do Método de atuação mais realista que figurava no trabalho dos atores do período, além de Brando temos Montgomery Clift, Paul Newman, Marilyn Monroe, Al Pacino, Jane Fonda e assim por diante. No elenco de Network temos nomes que marcaram esse período do cinema como Faye Dunaway que marcou para sempre sua imagem nas telas do cinema como Bonnie Parker no clássico Bonnie & Clyde: Uma rajada de balas, um dos grandes expoentes da nova Hollywood no seu retrato da famosa dupla de ladrões de banco, deslocados na sociedade e sedentos de algo mais (lembro da cena que Bonnie/Faye assiste fascinada Gold Diggers of 1933, que era mesmo um musical daqueles para alegrar o povo durante a Depressão, e sai cantarolando), e como o próprio nome brasileira ilustra, uma rajada de balas e uma violência ainda nova e mesmo hoje com exemplos cada vez mais escabrosos, a cena final da morte do casal metralhado ainda espanta e deixa o plateia sem fala. Isso eu digo só para lembrar um pouco do contexto, e aproveitando que eu assisti Bonnie & Clyde na mesma mostra! Eu acho que Faye é uma atriz extremamente subestimada, e olhando sua carreira, ela esteve um grandes clássicos do cinema e foi uma das maiores atrizes da época e até hoje seu talento é impressionante: ela quase incorpora seus personagens, e atua com uma devoção que não se vê sempre. 



O ano é 1976, e na década de 70 eu percebo uma decadência já até mesmo desse espírito rebelde contra o sistema que eu mencionei, pelo menos o seu apogeu que perderia força na década seguinte (que já teríamos adolescentes rebeldes como os de John Hughes, aliás eles já são outra geração!). Continua aqui uma crítica poderosa, mas há muito cinismo, ironia e acidez, transitando entre o cômico e o trágico, tudo em um tom de sátira. Bom lembrar que foi nos anos 50 que a televisão começou a bombar de fato, e a tomar o lugar do cinema quanto à preferência do público, preferindo o conforto do lar com programas e até filmes antigos. Não posso deixar de lembrar da personagem da Jane Wyman em Tudo o que o Céu permite, que em sua rotina de viúva bela recatada e do lar acaba se apaixonando por seu jardineiro gostosão (Rock Hudson), e é condenada pela sociedade por isso. Quando abre mão de seu amor por seus filhos (que mesmo a repreendendo, eles ironicamente mal dão atenção pra mãe), resolvem dar de presente para ela um aparelho de TV novinho. A tela espelha toda a tristeza de Jane, e o que deveria trazer o mundo e o lazer para dentro de casa, reflete a jaula em que ela se encontra, sozinha. E como diz Howard Beale em Network, num de seus discursos de profeta maluco, é essa caixa preta que vai moldar as gerações que a assistem, e ele relembra o povo: a realidade somos nós, e a televisão e todos que estão nela são ilusão, eles mentem, e fazem de tudo para acreditarmos nessas mentiras, e para que as incorporemos, e de repente é essa caixa preta que dita nosso modo de ser, de pensar e de se comportar. 

 

MAS OK, VOLTANDO: nessa pegada mais realista e inovadora de mostrar a realidade, Network critica essa caixa preta (hoje cada vez mais fina e com a tela cada vez maior) que até hoje continua tendo grande poder e influência sobre nossas vidas, e mesmo décadas depois vemos claramente a manipulação dos veículos midiáticos todos os dias, e não só na televisão mas na internet, na imprensa escrita, e assim vai. Acho que não poderia ter um diretor melhor como Sidney Lumet, que em sua filmografia como um todo sempre tratou de temas pungentes como a fragilidade da justiça, das instituições e da corrupção na sociedade como um todo, quase sempre em Nova York acompanhando o ritmo caótico da metrópole, extraindo performances memoráveis do elenco de seus filmes e com narrativas vigorosas. Podemos lembrar de filmes marcantes como Um dia de cão, com Al Pacino no papel de um ladrão que tenta assaltar um banco mas tudo acaba num grande circo fomentado pela mídia horas a fio; ou 12 homens e uma sentença com Henry Fonda como o jurado que discorda dos outros onze sobre a sentença suposta por todos de que o réu é realmente culpado e tenta convencer todos os jurados, em um clima de tensão crescente, que o réu pode ser inocente.

E uma coisa interessante é que o roteirista do filme, Paddy Chayesfsky, trabalhou e começou sua carreira na televisão, e provavelmente por sua experiência que ele conseguiu criar um roteiro tão mordaz como o de Network. Além desse filme, Paddy escreveu o roteiro de filmes emblemáticos como Marty, The Catered Affair (ambos com Ernest Borgnine, o último também com Bette Davis e Debbie Reynolds), Middle of the Night (com Fredric March e Kim Novak) e The Americanitazion of Emily (com Julie Andrews e James Garner). Não sou lá grande especialista mas nesses filmes sinto um gosto bem sagaz e espirituoso, desde uma pitada mais cômica até um ritmo melancólico, sobre as relações humanas, sempre pessoas complexas, solitárias e bem reais.


Eu falei monte de coisa e nem falei da história. Rede de intrigas já começa com várias telas e falas uma por cima da outra, e já prenuncia o ritmo frenético televisivo que está totalmente personificado na personagem de Faye, a cabeça da emissora do longa, Diana Christensen, uma espécie de Sonia Abrão que ama  morte, caos e destruição em troca de audiência. Mas enfim: tudo começa quando Howard Beale (Finch em atuação que lhe rendeu um Oscar póstumo de Melhor Ator), um âncora de jornal veterano, é demitido pela baixa audiência de seu programa. Desolado, Beale despiroca e resolve anunciar o seu suicídio ao vivo, o que faz os índices de audiência irem às alturas! Diana percebe uma possibilidade de salvar a emissora usando Beale e sua insanidade para criar a imagem de profeta louco. O ápice é quando Beale fala a famosa frase: I AM MAD AS HELL AND I AM NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE! 






Beale desconta toda sua raiva e insatisfação com a vida e a realidade e convoca todos a irem gritar em suas janelas, e é incrível que o povo faz e vira tudo um caos. Vejam a cena aqui:


https://www.youtube.com/watch?v=0XXsfG8OAqA


Ele fala de ''nova depressão'', crise, desemprego, inflação, e não pude deixar de lembrar da nossa realidade atual, e lembro como a mídia aproveita um período turbulento para inflar um discurso de ódio e revolta na população (gritando nas janelas, ~~batendo panelas~~) sem reais intensões de mudar algo, mas para manipular a população e garantir a audiência e o próprio poder. Mas no filme por sua vez a revolta contra o establishment é apenas para criar um circo que atraia o público, que vê uma figura insana mas na verdade eles não refletem profundamente sobre o que ele está dizendo, e quando Beale começa a falar demais e a ir contra os interesses dos poderosos que o criaram, esses mesmos é que o vão destruir. 




Enquanto Howard enlouquece e o povo grita nas janelas que estão loucos, Diana surta com os grandes índices de audiência, e resolve então com a aprovação do chefe Frank (Robert Duvall, mais novo mas já careca) o The Howard Beale Show, que é o freak show que eu mencionei, cheio de personalidades malucas e Beale bradando como uma espécie de pastor evangélico da nossa Tv. Junto a isso, para salvar a audiência da emissora,  temos  ''A Hora de Mao Tsé-Tung'' que é um programa com terroristas radicais sob a liderança da revoltada Laureen Hobbs (Marlene Warfield). Num diálogo memorável, Diana e Laureen se apresentam uma para a outra:

''Olá, eu sou Diana Christensen, uma lacaia racista do circo do Tio Sam''

'' Sou Laureen Hobbs, uma comunista negra badass''

''Parece a base de uma amizade duradoura''. 



Parênteses mega desnecessário: reparem na Conchata Ferrell, famosa por participar de Two and a Half Men super nova fazendo uma ponta no filme:


Nesse caos todo, há o personagem de William Holden, Max. Ele se recusa a participar no circo que virou o culto a Beale, e acaba sendo demitido da emissora. Porém, nasce entre Max e Diana um tórrido affair, mesmo com a diferença de idade e as personalidades opostas, a atração é enorme (eu shippo, tenho que dizer). Ele até larga sua mulher (Beatrice Straight) para ficar com Diana, mesmo sabendo que o relacionamento não pareça ter futuro. Alguns dizem que o romance entre os dois é algo bem descartável para a trama, mas eu acho interessante o romance dos dois florescer a ao longo do filme ir sucumbindo com os rumores que o caos de Beale vai tomando, e a busca incessante de Diana por audiência e sucesso contrasta com Max que é mais uma voz da razão e dos sentimentos, algo que Diana, televisão personificada, não conhece pois é vazia emocionalmente. Numa cena engraçada, Diana e Max fazem amor enquanto ela não para um minuto de falar sobre índices de audiência e programação; até enquanto eles transam ela continua falando num ritmo frenético sobre índices e trabalho até o fim. Em um momento do filme, Max diz para Diana:

''Você é a televisão encarnada, Diana: indiferente ao sofrimento; insensível à alegria. Toda a vida é reduzida a escombros comuns de banalidade. Guerra, assassinato, morte são todos iguais a você como garrafas de cerveja. E o negócio da vida diária é uma comédia corrupta. Você até mesmo quebra as sensações de tempo e espaço em frações de segundo e replays instantâneos. Você é loucura, Diana. Loucura virulenta. E tudo que você toca morre com você.''



Os discursos de Beale tornam-se cada vez mais perigosos quando começam a contestar as políticas da emissora, e suas falas depreciativas sobre a vida e desumanização da sociedade começam a fazer a audiência cair (as pessoas só querem sensacionalismo, de ambos os lados). Os chefões que criaram a figura louca de Beale resolvem dar um fim nele. É impressionante como os cabeças das grandes corporações usam as pessoas como bem entendem, visando apenas os próprios interesses: criam heróis, profetas, usam as pessoas assim como as descartam, ajudam a colocar e a tirar pessoas do poder (segura essa marimba, Rede Globo). Não só criam salvadores da pátria como usam o próprio povo como massa de manobra. Os programas abusam das emoções reais dos seres humanos apenas pela audiência, banalizando os sentimentos humanos e tornando tudo matéria de entretenimento barato. E mesmo com o passar do tempo, a televisão continua a mesma em muitos aspectos. Como o documentário Muito Além do Cidadão Kane trata o Domingão do Faustão, ''uma mistura de música, olimpíadas bobocas e catástrofes domésticas''. E reparem que mesmo décadas depois o formato do programa (além de muitos outros) continua exatamente o mesmo. Desde programas com sentimentalismo barato ou tratando as pessoas que nem lixo, uma busca louca pela fama a qualquer preço, programas de humor forçados, reality shows cada vez mais apelativos, novelas que sempre são enredos reciclados com modelos pagando de atores, e principalmente os telejornais que mostram a notícia da forma que bem entendem sob a fachada de imparcialidade e focados na informação, nos enchem com um padrão de como a vida deve ser, comerciais por toda a parte, aquelas mensagens batidas de ''siga seus sonhos'' e toda aquela obrigação de ser feliz quando na verdade não somos e talvez nunca seremos,  e nos enchem de ilusões e nos fazem acreditar nessas mesmas ilusões, enquanto nos distanciamos da nossa própria realidade, da nossa essência, e a forma de vermos o mundo real é através das mentiras que a televisão nos enfia goela abaixo. Seja pagando de imparciais politicamente corretos ou sendo super escrachados e barulhentos, eles só querem a sua audiência, independente das consequências. Beale berra: A televisão não é a verdade!


O filme abocanhou quatro Oscars: melhor roteiro original, melhor atriz para Dunaway, melhor ator para Finch (infelizmente póstumo pois o ator faleceu após o filme), melhor atriz coadjuvante para Beatrice Straight (num dos recordes de vitória por menor tempo na tela: ela apareceu por volta de cinco minutos durante todo o filme).



Uma curiosidade que eu fiquei sabendo: parece que Rede de intrigas sempre foi um filme que as emissoras evitaram de passar e até tentam evitar a sua circulação (!). O filme está disponível em DVD no Brasil e na internet pode ser visto com legendas aqui no link, VEM GENTE:


https://vimeo.com/47323848


Por razões óbvias, o que menos querem os chefões é que você pare de assistir aqueles filmes babacas que passam mil vezes seja na tv aberta ou paga e pare para assistir um filme realmente bom que faça você pensar sobre a sua realidade. Afinal, não precisa ser petralha comunista anarquista de extrema esquerda ultra radical e o cacete voador pra apenas parar um pouco e entender o quanto a mídia manipula as pessoas diariamente e que o sistema em si é uma bosta colossal. Desligada a televisão, a única coisa que resta é a tela preta e o seu reflexo nela.

Uma coisa que eu percebo é que estamos muito preguiçosos para ir atrás da informação, mesmo com recursos mil, o que talvez aumente nossa preguiça de ir atrás mesmo e sair do conforto de sair curtindo e compartilhando manchete sensacionalista, ou um post chamativo sem parar pra realmente ler sobre o que está acontecendo ou se aquilo de fato é real. E parar de ficar apenas em uma única fonte de informação sem parar para questionar se aquilo realmente condiz com a realidade. Por favor, VAMOS LER !!! E principalmente: parar para pensar, refletir. Ao invés de ir atacando e ficar naquelas discussões intermináveis de Facebook que nunca vão a lugar nenhum, que são mais batalhas de egos do que verdadeiros diálogos. Uma coisa que eu ouvi outro e dia e concordo: NÃO à ditadura do discurso único. Onde há diálogo se apenas um discurso é o certo? Isso é ditadura. E o que ditadores mais temem são livros, são pessoas que pensam. Por isso eu digo que uma revolução não se faz com armas, mas com livros (e filmes, claro <3).

Por razões óbvias, o que menos querem os chefões é que você pare de assistir aqueles filmes babacas que passam mil vezes seja na tv aberta ou paga e pare para assistir um filme realmente bom que faça você pensar sobre a sua realidade. Afinal, não precisa ser petralha comunista anarquista de extrema esquerda ultra radical e o cacete voador pra apenas parar um pouco e entender o quanto a mídia manipula as pessoas diariamente e que o sistema em si é uma bosta colossal. Afinal, não devemos pensar em ''bobagens'', temos que calar a boca e trabalhar e parar de ser vagabundo, já diriam certas pessoas. Mas não, a gente tem que fazer o que a gente quiser, não o que os outros esperam de nós. Temos que aprender a parar de rotular tudo e ficarmos sempre na superfície sem nos aprofundarmos e irmos atrás da informação e de um maior conhecimento do mundo e de nós mesmos, sem que revistas e programas de TV continuem ditando como devemos pensar e nos enchendo de verdades absolutas, ditando como devemos agir e pensar e nos tornando tão quadrados como a própria televisão é. Quantos Howards Beales terão que morrer até pararmos de tornar a vida em um circo de horrores promovido não só pelos sedentos de poder quanto pelo público sedento de caos e destruição que ainda aplaude qualquer coisa e ainda acha engraçado? 


''Essa foi a história de  Howard Beale, o primeiro homem que morreu porque dava baixa audiência. ''





Faye participou recentemente do TCM Film Festival e deu uma entrevista sobre o filme e toda sua carreira antes de uma sessão do filme. Agora em 2016 Rede de intrigas completa 40 anos, e continua atual e ainda mais empolgante do que em sua época de lançamento. Aos que reclamam de filme antigo blá blá blá, o ritmo é perfeito, ao mesmo tempo que é crítica mordaz balanceia muito bem os momentos cômicos com os dramáticos, tudo em uma atmosfera de grande ironia e cinismo, os diálogos são excelentes, as atuações magníficas e não tem como sair da sessão sem refletir sobre o quanto o filme diz respeito a nossa realidade. Enfim, filme foda é aquele que você termina como uma outra pessoa, não que muda a sua vida mas que pelo menos sai com você e faz você parar para pensar sobre o mundo ao seu redor. 


E é isso, noviços,  aproveitando o espaço eu grito aqui aos sete ventos da Internet:

A VERDADE É DURA, A REDE GLOBO APOIOU A DITADURA !!!!!!!! Como já disse no meu post anterior sobre a Leila Diniz , através do apoio do jornal O Globo os Marinho conseguiram com apoio do grupo Time (americanos porque afinal os Estados Unidos são sempre a cabeça dos golpes contra governos de esquerda) e assim a emissora foi fundada. Agora apoia um golpe não militar, mas jurídico midiático, isto é, os juristas são corrompidos, partidários, e julgam como bem entendem, e a mídia é conivente com a corrupção e defende os símbolos do capitalismo  (que por sinal já mostra sinais de colapso com tantas crises), EUA e Cia. A mídia (não só a Rede Golpe, mas o grupo Abril com aquela aberração vulgo Veja que mais parece um tabloide neonazista, o Estadão e a ''Falha'' de São Paulo) varre o que não lhe convém mostrar para debaixo do tapete, enquanto ataca e ainda manipula o povo a derrubar quem vai contra seus interesses, sempre sob a fachada de imparcial e politicamente correta mas escondendo seus reais interesses de manter seu monopólio sobre o Brasil e suas políticas sórdidas que apoiam governos ditatoriais e neoliberais, e sua imprensa chapa branca é totalmente conivente com a corrupção dos partidos e políticos que a mesma apoia veladamente. Vejam em Network os chefes da emissora e os políticos discutindo e decidindo o fim de Howard Beale, que já estava perigoso demais, convocou a população a floodar a Casa Branca contra medidas que envolviam a própria emissora e os seus negócios, e sendo ele não mais rentável devido à baixa audiência, os chefes convocam o exército de terroristas do outro programa para exterminá-lo (ao vivo!). Não é preciso armas, vejam como a televisão e a imprensa conseguem manipular a opinião pública, quando deveria mostrar as coisas como elas realmente são e nos deixaram criar nossas próprias opiniões. Através da sua manipulação descarada mostravam o período da ditadura como se fosse um período de flores (não à toa o Médici parava pra assistir Jornal Nazional dizendo que era ótimo depois de um dia longo de trabalho ver como o Brasil estava tranquilo, isso no auge da repressão). Por fim, postando novamente o ótimo documentário Muito Além do Cidadão Kane para vermos como a mídia manipuladora é um câncer na sociedade.

https://www.youtube.com/watch?v=PiV-i-fcxHw


Mas alguém avisa que a audiência deles só vai cair e que aos poucos ninguém cai na conversa deles mais, e as novelas deles estão uma bosta. Como levar um jornaleco como O Globo a sério quando ele previu que os Beatles não durariam nem seis meses??  (LOL). Dou nem seis meses para os golpistas, mas isso é outra história. Viva as séries, netflix, internet, dvds, youtube , torrents da vida, golpistas não me representam, Faye não anda ela desfila, e essa crítica ficou péssima! Não sou petista, mortadela é uma delícia e minha mamata não vai acabar porque Capitão von Trapp me sustenta muito bem com Criterions, obrigada!

Enfim, beijos de luz e até a próxima. Não faça golpe, assista filmes!

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 Obrigado a todos que leram os meus textos postados aqui até agora. Eu sou muito grato a todos os meus leitores! A partir de agora (2025), e...