domingo, 3 de novembro de 2019

As peripécias de Clara Bow, a primeira It Girl da História


     Muito antes da Internet, da televisão, e das redes sociais, o Cinema era o veículo mais poderoso de comunicação da primeira metade do século XX (junto ao rádio). Em tempos de comunicação mais remota, ele permitia uma estrela de cinema ser reconhecida e idolatrada em todos os cantos do planeta. Se hoje uma "It Girl" é alguma espécie de influencer bonitinha e descolada do momento, que frequenta muitas festas e tem dinheiro à vontade, não era bem assim quando surgiu o termo, na Inglaterra, e o mesmo estourou nos EUA.

O filme de 1927 foi o auge de Clara Bow 


Elinor Gryn difundiu o termo "it" como sinônimo de graça, charme e sex appeal em suas obras picantes e personalidade extravagante no começo do século passado. Apesar do termo provir de antes do sucesso da escritora, foi ela quem popularizou "It".

     Estamos nos anos 20 e a grande palavra-chave da verdadeira it girl é carisma. É o próprio it, que é quase que intraduzível. Clarice Lispector fala muito da essência "it" da vida em seu livro Água Viva, o qual o cantor Cazuza celebremente releu umas 111 vezes. Agora, o it de Clara Bow ninguém nunca teve igual. É, assim como a água viva da essência humana, impossível de ficarmos indiferentes a ela. Ela nos move. E ao se mover na tela, sabemos que não existe ninguém igual a ela. Sua personalidade emana de cada gesto, cada olhar, cada fio de cabelo. A câmera e o público a amam e não são capazes de enxergar outra coisa quando a garota entra em cena. Os anos se passaram mas seu charme pessoal e luz própria não se apagam; seu jeito espontâneo de ser permanece moderno e até contemporâneo. Eis a primeira (e inigualável) it girl: Clara Bow. Assim como Marilyn Monroe nos anos 50 e 60, Clara Bow foi o grande símbolo sexual dos anos 20. Mas apesar de ter sido a atriz mais popular da sua época, o fardo foi muito pesado para a ruivinha aguentar. 


É autoconfiança e indiferença em relação a agradar, ao mesmo tempo que dá a impressão de que não se trata de frieza. (...) Com "it", você vence todos os homens se for mulher e todas as mulheres se for homem. Pode ser uma qualidade da mente, bem como uma atração física. 
Elinor Gryn (1927)


     Vamos voltar mais para trás, mais especificamente no ano de 1905. No dia 29 de julho, a leonina com ascendente em Peixes Clara Gordon Bow nascia em Prospect Heights, no Brooklyn de Nova York. Ao ler a excelente biografia de David Stenn (Runnin' Wild, 1988 - minha maior fonte para este post), é de impressionar a vida difícil que Clara teve desde criança. Bow nasceu na pobreza e teve uma infância conturbada. Ela foi a terceira filha do casal Sarah (1880-1923) e Robert Bow (1874-1959), mas suas irmãs mais velhas morreram ainda bebês. Mesmo Sarah correndo risco de vida com uma terceira gravidez e tendo um parto difícil, Clara nasceu. Sua vida não seria fácil.

Bow com um ano de idade. A expressividade no olhar já era notável

     Os Bow mudaram muito de endereço, devido à total instabilidade familiar, porém raramente saíram dos cortiços de Prospect Heights durante a infância de Clara. Era uma região pobre do Brooklyn infestada pela miséria, doenças e péssimas condições de vida. O pai Robert era um fracassado que vivia ausente pulando de emprego em emprego, também ressentido pelo desprezo da esposa. Clara cuidava de Sarah, que era doente mental e tinha crises sérias de epilepsia, até mesmo ataques psicóticos contra a filha. Os parentes eram distantes e rejeitaram Clara desde sempre. Clara, por alguma razão, se sentia culpada pela doença da mãe e fazia de tudo por ela, mesmo tendo sido quase assassinada diversas vezes pela mãe em ataques psicóticos. Era depreciada com rótulos de "vagabunda" para baixo quando a filha dizia querer ser atriz. O pai a abusava - físico, psicológico e até sexualmente.

Clara aos 3 anos


     Clara era muito espontânea, mas tímida e retraída. Falava "errado" e com um sotaque carregado do Brooklyn. Sofreu muito bullying na escola pública (P.S.) dos colegas pela sua aparência desajeitada e também gagueira (que teve por toda a vida, quando ficava nervosa). Vivia numa pilha de nervos por passar fome, sofrer maus tratos dos pais e ainda mal ter o que vestir, enquanto as outras crianças tiravam sarro dela.  As garotas a desprezavam por suas roupas e modos na Bay Ridge High para moças em 1919. Por auto-defesa, preferia fazer a linha durona na companhia dos garotos, ganhando de muitos no muque, no beisebol e na rebeldia. Tristemente, chegou a presenciar um de seus poucos amigos morrer queimado na sua frente, após um acidente. Clara nunca esqueceu do amigo Johnny.

     Ajudou a sustentar a casa desde cedo, como fazendo cachorro-quente numa barraca em Coney Island. Numa vida tão difícil, as estrelas de cinema pareciam representar um mundo distante de tantas tristezas. E de alguma forma, Clara sentiu que sua vida poderia ser diferente, e havia beleza no mundo. Decidiu ser atriz, mesmo que desajeitada, sem autoestima e awkward. Seus atributos físicos até lhe renderam prêmios e medalhas em competições. Pensou em ser atleta, mas o momento crucial de Clara foi em 1921,  aos 16 anos, quando decidiu se candidatar para um concurso de beleza de uma revista. Apesar do descrédito dos pais, de si mesma e até mesmo dos fotógrafos, Clara ganhou o prêmio máximo e um papel no cinema. Beyond the Rainbow foi o primeiro de seus 57 filmes: 46 silents e 11 talkies. 

A vencedora do Fame and Fortune Contest de 1921

     Enquanto Clara dava seus primeiros passos, sua mãe acabou internada numa clínica psiquiátrica, onde ficou até seu falecimento. Clara a visitava frequentemente, mesmo com o desprezo da mãe psicótica que quase cortou a sua garganta quando falava de ser atriz. E para completar, Clara foi estuprada pelo pai durante essa época. Por piores que tenham sido os abusos cometidos por seus pais, Clara sempre se sentiu responsável pelo bem-estar deles e até culpada pelas coisas ruins que aconteciam em sua vida. Isso tudo afetou muito o psicológico de Clara, culminando então nos problemas psiquiátricos que ela mesma teria pelo resto da vida. 

Clara em sua estreia no cinema: Beyond the Rainbow (1922). Das cinco cenas filmadas, Clara foi cortada na primeira versão do filme, para sua tristeza. Mas nos prints que sobreviveram, as cenas dela foram mantidas.

     Pareceu o começo do fim, mas sua participação no filme não passou em branco. O embuste do pai a incentivou a persistir na carreira no show business. "Mas sempre tinha alguma coisa. Ou eu era muito jovem, ou muito pequena ou muito gorda. Geralmente muito gorda", ela diria anos depois. Todos costumavam rir da cara dela e debochando daquela garota desajeitada; alguns até duvidavam de que se tratava da mesma garota do concurso. Mas o diretor Elmer Clifton, convencido por editores, resolveu dar uma chance para a moça e a ela ofereceu 30 dólares por semana. Ela queria 50. Concedido. O filme foi Down to the Sea in Ships e a aparência de tomboy combinou com os interesses do diretor.

Bow em Down to the Sea in Ships, filmado em locação em New Bedford, Massachusetts. Apesar de ser o 10º nome nos créditos, os críticos foram unânimes: ela roubou a cena


O ano de 1924 começou bem para Clara, vencedora do concurso de Baby Stars da Western Assicoation of Motion Pictures Advertisers (WAMPAS) no final de dezembro de '23

     Ofertas de contratos em Hollywood começaram a surgir. Clara queria ficar fazendo filmes em Nova York, mas o pai a convenceu a partir para a cidade dos sonhos. Até então (1923-1924) havia dançando seminua em The Daring Years e participado de Grit, baseado numa história de F. Scott Fitzgerald, o autor emblemático dos loucos anos 20. Nesse filme Clara conheceu seu primeiro namorado, Arthur Jacobson, e  o diretor Frank Tuttle relembra: "Suas emoções eram à flor da pele. Ela podia chorar sob demanda, abrindo a comporta de lágrimas quase assim que eu pedisse que ela chorasse. Ela era dinamite, cheia de energia e vitalidade nervosa e lamentavelmente ansiosa para agradar a todos."

Clara foi sempre muito expressiva e sabia passar do riso às lágrimas numa questão de segundos, com pouco esforço. Suas experiências de vida complexas favoreceram seu trabalho como atriz.

"Chorar é fácil. É só lembrar de casa"


   
Clara e Arthur Jacobson, seu primeiro namorado


     Bow e sua agente Maxine Alton se mudaram juntas para um apartamento em The Hillview, no Hollywood Boulevard. Maxine, autoritária e possessiva, auxiliaria Clara a se moldar nos padrões hollywoodianos da época, mas posteriormente as duas tretariam, culminando na demissão de Maxine, a qual Clara chamou depois de "mentirosa". Apenas uma das inúmeras tretas da vida de Clara. 

     Grit causou ainda mais alvoroço ao redor da figura de Clara Bow. A atriz assinou com a Preferred Productions através do embuste produtor B. P. Schulberg, que a usaria por muitos anos, financeira e sexualmente, como o maior chamariz do lote (e também pagaria muito abaixo do ordenado comum de uma estrela da época). Louella Parsons a entrevistou e virou amiga de Clara. Ao defendê-la anos depois de calúnias, a colunista venenosa disse que "ela é tão revigorante na sua ausência de afetação como se nunca tivesse enfrentado um meio de fingir. Ela não tem nenhum segredo do mundo, ela confia em todos ... Ela é boa demais para ser verdade ... (Eu) só desejo que algum "reformador" que acredite que a tela que contamina todos os que se associam a ela possa conhecer essa criança. Ainda assim, pensando bem, pode não ser seguro: Clara usa um par de olhos perigosos.


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Maytime (Louis J. Gasnier, 1923), seu primeiro filme em Hollywood, pela Preferred Pictures. Até 2009 era considerado perdido, quando foi encontrada uma cópia parcial na Nova Zelândia

O livro Flaming Youth nas mãos é um aviso: abram alas para a mais nova e irresistível flapper. "Ela é a personificação do ideal da flapper aristocrática: travessa, bonita, agressiva, irritadiça e profundamente sentimental" refletiu o diretor Frank Lloyd, que ao ver Clara pela primeira vez, encontrou o que faltava para seu filme Black Oxen (1923)


Colleen Moore, a síntese da flapper. Seu filme emblemático Flaming Youth foi lançado apenas seis semanas antes de Black Oxen. Com o final dos anos 20, Colleen ainda fez alguns talkies mas terminou por se aposentar das telas. Moore continuou ativa como investidora no mercado de ações e também criou uma icônica casa de bonecas que está exposta até hoje em um museu de Chicago

     Clara se tornaria então uma das representantes das jovens atiçadas dos anos 20, chamadas de flappers. Após o sucesso de ambas, as duas foram escaladas para trabalhar juntas como irmãs em Painted People. A sincericida Clara disse que não gostava do seu papel e disse para a estrela Colleen que queria o papel dela. Moore, em resposta, mandou que o diretor do filme não fizesse close-ups de Bow como castigo para a iniciante. Clara ficou putíssima e quis se vingar "daquela bitch", nas suas palavras para o namorado. Tendo problemas de sinusite, aproveitou o momento conveniente e fez uma operação que a deixou coberta de ataduras e curativos. Clara atrasou a produção de Colleen e foi tirada do projeto - assim como planejou. Eram tempos de fúria e Clara era uma representante perfeita, com sua imensa fúria de viver. 

À esquerda, em Black Oxen (1923)

Em 1931, com o pai, "King" Bow. Causava sempre confusão, se intrometia na vida da filha, a manipulava e jogava o dinheiro dela pela janela com jogo e mulheres


     Apesar de doce, humilde e carinhosa, Clara poderia perder completamente os limites quando as coisas saíam do controle. Desafiou o estúdio ao trazer seu pai e seu namorado Arthur Jacobson para viverem junto dela, na North Kingsley Drive. Schulberg, o dono da Preferred, demitiu Jacobson por "meter sua estrela em escândalo". Clara rasgou o próprio contrato e jogou na cara de Schulberg, dizendo que ninguém podia se meter em sua vida privada. No fim chegou-se num acordo. "King" Bow, o pai de Clara, virou um sanguessuga  agente postiço da filha. Jacobson era tido como "irmão" de Clara nas reportagens para abafar o relacionamento de ambos, que terminou pouco depois.

Em 1924 para a Photoplay, quando fez Poisoned Paradise (seu primeiro papel principal) e Daughters of Pleasure. Seu talento transcendia o rótulo de flapper


A dramédia Wine (1924) retratava o submundo da Proibição/Lei Seca e foi mais um triunfo para a ascensão meteórica de Clara como a queridinha da América que misturava inocência com sex appeal de forma alucinante. O filme é considerado perdido, como muitos da época


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O jeito de ser natural e sem filtros de Clara chocava os mais pudicos

     Clara trabalhava exaustivamente. Nos primórdios do cinema, os filmes mais comuns dos circuitos eram produções menores feitas em pouco tempo; apenas em 1925 Clara chegou a fazer 15 filmes! Acontecia de trabalhar em dois ou três filmes seguidos, 18 horas num mesmo dia, chegando à exaustão emocional. Dizia nunca estar satisfeita com o próprio trabalho, que imaginava num futuro próximo se aposentar, já que a fama nunca seria eterna. E em plena juventude adorava se divertir e aproveitar sua vida, e que talvez fosse esse joie de vivre que emanasse na tela através de seu trabalho. Prestes a decretar falência da Preferred Pictures, Schulberg se aliou a Adolph Zukor da Paramount Pictures como produtor associado dos estúdios Paramount, onde Clara viveria seus anos de glória máxima. E segundo as palavras de Zukor, "apenas o público pode fazer uma estrela". E Louise Brooks, contemporânea flapper de Clara, disse que Bow se tornou uma estrela "sem a ajuda de ninguém". Seus filmes eram a sensação de qualquer estação do ano: "Spring Bow", "Summer Bow". O público a amou e a colocou no topo por anos consecutivos. 

Com seu amante e futuro noivo Gilbert Roland em The Plastic Age (1925) - fagulhas saindo do olhar. 

A amizade dos dois durou até o final da vida de Clara, em 1965

Após muitos filmes mambembes na Preferred, The Plastic Age foi o primeiro verdadeiro hit da carreira de Clara. Suas personagens costumavam ser humanas impulsivas, joviais e despreocupadas, anti-heroínas, pois nunca eram só boas ou só más. Se faziam algo errado, sua graciosidade as redimia. Se era a mocinha sofredora, todos se comoviam com seus dramas

     Mas se era o começo de um caso de amor entre Clara e seu público, não era bem assim em Hollywood. Clara era esnobada pela elite do cinema dos anos 1920, que a considerava vulgar e inadequada. Hipócritas, muitas estrelas e poderosos da indústria provinham de origens tão humildes quanto as de Clara, mas ao enriquecerem viravam burgueses esnobes com valores fúteis de classe alta, desprezando pessoas de espírito livre como Clara. Mas o grande diferencial da jovem flamejante era justamente ir contra os padrões. Pintava o cabelo o mais ruivo possível (forte para a época), assim como pintava as pernas, e ao mostra-las na praia causava sensação. Sua persona brincava com gênero, ao representar tanto tomboys como moças modernas, confiantes de si mesma. Apesar de incorporar esse modelo, Clara era extremamente insegura e sem autoestima pessoalmente. 

Câmeras extras eram chamados para captar ao máximo a espontaneidade de Clara. Em Mantrap (1926)

Em 1926, na época de seu sucesso Mantrap em seu primeiro contrato oficial pela Paramount. A história de Sinclair Lewis pintava a manicure saliente enrolada com dois homens como má, mas Clara a fez como "flertadora".O diretor Victor Fleming foi um de seus grandes amores. É um dos melhores filmes de Clara!


Com Conway Tearle, Clara roubou a cena em Dancing Mothers (1926), num triângulo amoroso envolvendo mãe e filha. Apesar de ser a "bad girl" da história, a plateia terminou por torcer por ela ao invés da mãe Alice Joyce



     A vida afetiva e sexual de Clara era bem agitada, para o espanto da comunidade de Hollywood. Durante os anos 20 seus maiores affairs foram com o diretor Victor Fleming, o futuro astro Gary Cooper e seu noivo Gilbert Roland. Clara considerou Roland como sua "primeira grande experiência amorosa", e mesmo depois de separados mantiveram a amizade até o fim da vida. O caso com Gary Cooper foi bem fogoso, com muitas tiradas apimentadas de Clara para os mais íntimos, principalmente sobre o grande vigor sexual de ambos e também sobre o pênis de Cooper ser talvez o maior do condado de Los Angeles. Já Fleming, diretor mulherengo, Clara considerou um verdadeiro "homem", uma espécie de figura paternal, e a fez suspirar por muito tempo... Apesar de nunca ter sido mais do que um affair. Teve um relacionamento com o líder de banda Harry Richman, num caso conturbado que estampava sempre os jornais e revistas - com manchetes dignas de RedeTv, e Richman se aproveitava da fama de Clara para se promover. Bow também teve um caso com o eterno drácula Bela Lugosi. O ator guardou um retrato de Clara nua por toda a vida. 



     Indo contra a maré dos almofadinhas e das divas esnobes e caricatas, Clara era a rainha da classe trabalhadora (maior público dos cinemas) ao interpretar personagens humildes e do povão, como manicures, lojistas ou showgirls; que não tinham vergonha alguma de sentirem atração pelos homens e irem atrás deles, contrárias à moral castradora vigente até então. Sendo assim, suas personagens eram mais passíveis de identificação do grande público. Bebia e fumava em público, usava roupas sensuais que a favoreciam e aproveitava a noitada até cansar, tanto no cinema como na vida real. Era o modelo das mulheres trabalhadores e o sonho dos homens médios. 

Com Gary Cooper no filme Children of Divorce (Frank Lloyd, 1927). "O homem mais doce que eu conheci", diria Clara até seus últimos dias. Foi uma das poucas incursões da atriz no drama. Fleming considerou a cena final de Bow uma das melhores sequências filmadas.

      As festas e reuniões promovidas por Bow iam até altas horas e tocavam o terror nas vizinhanças em torno, causando visitas da polícia ocasionalmente. Mas apesar de ter sido liberada sexualmente e inconsequente, Clara nunca chegou ao ponto de, por exemplo, ter transado com um time inteiro de futebol, como um boato infame da época a perseguiu por décadas. Apesar do interesse e relação com jogadores famosos de futebol, o biógrafo David Stenn enfim desmentiu a fofoca em seu livro. Por causa de sua má reputação, Clara Bow sempre foi perseguida por calúnias e boatos mentirosos que feriam sua imagem. 


 
"Eles brigam comigo para ser "digna". Mas o que são as pessoas "dignas"? As pessoas que são consideradas exemplares? Elas são esnobes. Esnobes assustadores. Eu sou uma curiosidade em Hollywood. Eu sou uma grande aberração porque eu sou eu mesma!" C.B.

      Em 1927, Bow fez seis filmes na Paramount, dentre eles Filhos do Divórcio, Rough House Rosie, Hula e Get Your Man. Todos foram sucesso de bilheteria, apesar de Clara geralmente ser mais interessante do que os enredos dos próprios filmes em si. Destes, valem menção Asas (William A. Wellman, 1927) e o famigerado It. O último marcou para sempre o nome de Clara Bow na história do cinema, rendendo à atriz o recorde histórico de 45 mil cartas de fãs por semana. Até hoje o recorde nunca foi batido por nenhuma outra estrela. As cartas chegavam a ser endereçadas para a "It Girl" ou "Miss It". Clara, apesar de desnorteada com as multidões, atendia aos fãs com muito carinho e deu autógrafos até seus últimos dias.

Autógrafo de Clara, cortesia de ClaraBowArchive

      No Brasil, o filme It se chamou "O-Não-sei-o-quê das Mulheres". 

O filme na íntegra no Youtube - muitos filmes de Clara estão disponíveis online


It seria nada mais do que uma história de Cinderela da empregada de loja que se apaixona pelo patrão, se não fosse o charme de Bow que marcou toda uma Era. Aos 22 anos, era a maior estrela do cinema americano

Clara foi o primeiro símbolo sexual de Hollywood, precedendo ícones como Lana Turner e Marilyn Monroe, as quais considerou duas "it girls" de seus tempos. Robert Mitchum para ela era um grande "It Boy"

1927 ainda reservou para Clara papel de destaque no épico Asas, primeiro filme vencedor do Oscar de Melhor Filme. Mas a atriz não ficou tão feliz, se achando deslocada num "filme de homens", vide imagem abaixo haha. Mesmo assim, Clara foi quem recebeu o Oscar das mãos de Douglas Fairbanks na entrega do prêmio

Muito pioneiro, o filme além das animadas sequências de aviação, hoje é mais lembrado pelo primeiro beijo gay entre homens do cinema - apesar do contexto fraternal dos personagens em meio à guerra

      Ao invés de ir nas premières dos filmes, a atriz preferia jogar cartas com os empregados, mais fiéis a ela do que o pai, os agentes e os amantes. Clara pretendia se aposentar ao final de seu contrato com a Paramount, em 1931. A It Girl foi o ápice de sua carreira, mas o grande sucesso acabou se voltando contra Bow. Após o sucesso de It, a Paramount e o público queriam apenas ver Clara interpretando a mesma "it girl" ad infinitum, em filmes de menor qualidade e sem nenhum atrativo a não ser a performance de Clara, que aos poucos se cansava dos roteiros medíocres e do trabalho sem fim. Queria ser lembrada como uma atriz séria; não obstante, recusavam dar a ela papéis mais densos e diferenciados. A it girl se tornou um estereótipo reciclado até a exaustão, mesmo com a espontaneidade de Clara. Em 1928, fez quatro filmes: Red Hair, Ladies of the Mob, The Fleet's In e Three Weekends. Todos são considerados perdidos. Como é de conhecimento geral, quase 80 por cento dos filmes mudos são considerados  até então perdidos.

The Fleet's In, um dos filmes perdidos de Clara

      A proeminente escritora da época Adela Rogers St. Johns entrevistou Clara na casa da atriz e ficou espantada  e fascinada com a figura perdida, frenética e graciosa de Bow, em meio ao caos da família disfuncional e da casa com decoração esquizofrênica. Clara era extremamente sincera e não escondia nada, sempre muito franca sobre sua origem pobre, os abusos que sofreu, suas noites agitadas de jogo e namoro, e a hipocrisia dos outros contra ela. Numa época onde o lance era maquiar o máximo possível, a sinceridade esmagadora de Clara não era sempre bem recebida com bons olhos. Adele escreveu:


Em sua casa mais célebre no 512 N. Bedford Drive. em Beverly Hills, final dos anos 20

"Aqui parece não haver um padrão, nenhum propósito para a vida dela. Ela muda de uma emoção para outra, mas não ganha nada, não armazena nada para o futuro. Ela vive inteiramente no presente, nem hoje, mas no momento. Clara é a total inconformista. O que ela quer, ela recebe, se puder. O que ela deseja fazer, ela faz. Ela tem um coração grande, um cérebro notável e o mais absoluto desprezo pelo mundo em geral. O tempo não existe para ela, exceto que ela acha que vai parar amanhã. Ela tem verdadeira coragem, porque vive com ousadia. Afinal, quem somos nós para dizer que ela está errada?"

Clara Bow com sua fanmail interminável, final dos anos 20

        O cinema falado então surgiu para abalar as estruturas de Hollywood e veio para ficar. Bow, assim como Chaplin e Louise Brooks, repudiaram a novidade. Segundo os defensores do cinema mudo, muito da ação é perdida com o diálogo, já que a expressividade através da imagem é o conceito básico do Cinema. Mesmo assim, 1929 ainda reservou a continuidade de seu sucesso nas bilheterias com The Wild Party (dir. Dorothy Arzner - a diretora mulher de mais destaque dos anos 1930), Dangerous Curves (dir. Richard Arlen) e The Saturday Night Kid (dir. A. Edward Sutherland - filme onde Jean Arthur teve mais destaque do que a própria Clara, mas as duas se deram bem). Nos bastidores, porém, foi uma luta incessante de Clara contra o microfone. Ela precisou fazer inúmeros retakes porque não parava de encarar o microfone em cena. Recorrendo a sedativos, o nervosismo e exaustão levaram Clara quase a um ataque de nervos, fazendo a atriz gaguejar e chorar sem parar durante as filmagens.  

Com Fredric March, seu parceiro de cena em The Wild Party e True to the Navy

     Todavia, mesmo com a voz desafinada de Clara e seu forte sotaque do Brooklyn, a Paramount e os moviegoers estavam satisfeitos. Em 1930, emplacou ainda sucesso com True to the Navy, Paramount on Parade (onde cantou), Love Among the Millionaires e Her Wedding Night. Ficou apenas atrás de Joan Crawford no box office. A saúde física e mental de Clara estava por um fio, entretanto... E as tretas vieram seguidas como numa avalanche. 

Clara à beira de um ataque de nervos. Apelidaram-na de "Crisis-a-day-Clara"

     O começo da década de 30 foi com certeza o pior momento da vida pública de Clara. Sua amiga e empresária, Daisy DeVoe, cuidava dos negócios da atriz e muitas vezes encobriu ou fez o seu melhor para administrar os negócios da patroa descuidada e ingênua. Clara, infelizmente, sempre foi muito ingênua e cercada de pessoas trapaceiras e aproveitadoras. O caso de Daisy, porém, foi uma sucessão de desencontros e bizarrices. Primeiramente, o noivo de Clara, Rex Bell, não gostava de Daisy e fez de tudo para que ela fosse demitida. Daisy, prevendo sua demissão, tomou uma atitude que lhe custou caro: pegou pertences de Clara, como joias, cheques e papeis importantes sem o consentimento da patroa. Segundo a versão de Daisy, foi para evitar que Clara fizesse investimentos arriscados com aqueles mesmos pertences de valor - mas mais para garantir seu emprego, o que foi interpretado como chantagem. Rex Bell a denunciou formalmente, mais por motivos pessoais do que concretos. Daisy por fim foi obrigada a confessar o roubo, e a Justiça acabou sentenciando e a prendendo. Clara não teve outra saída a não ser demitir Daisy e romper relações, sem ouvir o que a ex-secretária tinha a dizer. Para se vingar de Clara, Daisy jogou no ventilador todas as histórias picantes e chocantes que sabia de Bow para a imprensa, o que causou um verdadeiro frenesi que jogou o nome de Clara na lama. Porém, a maioria das histórias sobre orgias, escatologias e o que você quiser mais (até de zoofilia com seu cachorro Clara foi acusada), foram invenções para manchar a reputação de Clara. Em troca, Daisy foi acusada de roubar a atriz desde sempre, o que de fato era mentira. Todo esse bafafá terminou nos tribunais, com muito sensacionalismo, tiro, porrada e bomba, dedo naquele lugar e gritaria. 


O caso Bow x DeVoe, uma comédia de erros que terminou mal para ambas

     Os executivos da Paramount manipularam o processo até o fim, culminando na sentença de Daisy. O caso que poderia ter acabado num acordo terminou com a secretária sentenciada (não pelos supostos roubos, mas por ter confiscado um casaco de pele de Bow) fazendo o maior escândalo midiático. E Clara, mesmo vítima na história, não pôde negar que foi muito tola com seus negócios e deixou as coisas tomarem proporções absurdas por negligência própria. Mas ninguém poderia julgar de fato Clara, porque a moça estava prestes a ter um colapso nervoso e sendo motivo de chacota na Corte e na opinião pública que a massacrou, desde os escândalos diários da imprensa, até esse caso jurídico que foi então a cereja do bolo para o fim de sua vida pública. O fracasso de seus últimos filmes não colaborou com sua saúde, e em abril daquele ano Clara Bow foi internada numa clínica psiquiátrica para se tratar. 

      O mais irônico é que Daisy, apesar de tudo o que fez, foi uma das poucas pessoas que não roubou de fato Clara. Antes de Daisy assumir as finanças de Clara, os negócios da atriz estavam quase decretados como falidos. E foi Daisy quem abriu o fundo de economias para Clara, com reservas de seu salário dos filmes. Foi com esse dinheiro que Clara pôde continuar sua vida longe do cinema, senão teria terminado na miséria. Enfim, após cumprir pena, Daisy DeVoe refez sua vida. E Clara começou a juntar os cacos da sua. 


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Com o galã rústico de Westerns Rex Bell, seu marido a partir de 1931


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Com Rex, durante o conturbado processo de Daisy

       E apesar dos escândalos, excessos, pressões, desgaste físico e emocional... Clara ainda marcou presença como a quinta maior bilheteria com No Limit e Kick In em 1931. Mas a Paramount achou melhor descartar de vez a estrela problemática e a liberou de seu contrato. 

     Então foi numa noite,  no mesmo ano, em que Clara deixou a Paramount pela última vez. Descartada e desonrada, a estrela mais popular da história do Cinema havia se tornado uma hasbeen obsoleta com um passado lendário e um futuro obscuro. Ela tinha 25 anos de idade.


Kick in, o último filme de Clara Bow para a Paramount... Sua carreira estava acabada



        Sylvia Sidney, namorada de Schulberg, foi a aposta da Paramount para substituir Clara Bow como maior estrela do estúdio, mas com a saída de Bow a Paramount foi desbancada pela MGM e Schulberg foi demitido. Posteriormente, Sylvia abandonou o produtor e consolidou sua carreira em Hollywood por si mesma, estrelando muitos filmes de sucesso. Um deles foi City Streets (dir. Rouben Mamoulian), de 1931. O papel seria de Clara, mas com o fim de seu contrato, ela foi dispensada do projeto. 


Por sinal, o leading man de City Streets era Gary Cooper, o ex-amante de Bow


Filmagem que Clarinha (rechonchuda) e o marido fizeram quando visitaram a Inglaterra 



     Após deixar Hollywood, Clara Bow se casou com Rex Bell oficialmente em Las Vegas no mesmo ano, quando a cidade ainda era pequena e sem badalo. E em Nevada se estabeleceram no rancho de Rex, apelidado então de Rancho Clarita em homenagem à mulher. Enfim, após tanto tempo de agito e filmagens infinitas, Clara conseguiu manter hábitos saudáveis e cuidar mais de si própria. No Rancho Clarita, levava uma vida tranquila, calma, com bom sono, boa alimentação e exercícios diários. Continuava recebendo cartas de fãs de todos os cantos do mundo, colocando-a pra cima e clamando para que voltasse aos filmes. Por sinal, Clara ainda voltou a fazer duas películas, as quais seriam de fato as suas últimas. Call Her Savage (John Francis Dillon, 1932) e Hoop-La (Frank Lloyd, 1933), ambos pela Fox Films. Clara fez os filmes mais pelo dinheiro para continuar vivendo sua vida tranquilamente longe do fuzuê de Hollywood. 

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Os Pre-Codes mostraram uma Clara menos glamourizada e mais madura como atriz. Call Her Savage é talvez a melhor atuação falada de Clara, contou com o ex Gilbert Roland no elenco e ainda foi pioneiro em mostrar gays em cena (e um bar gay como cenário!)


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Com Gilbert Roland em Call Her Savage (1932). Os críticos elogiaram o comeback de Clara

      Porém a atriz decidiu abandonar de vez o cinema para se dedicar à família e a si mesma, sem querer mais assumir compromissos contratuais com nenhum estúdio. Todos eles lhe enviavam propostas, com exceção da Paramount obviamente.  Mary Pickford, uma das queridas de Bow, a considerava ótima atriz e ainda a quis como sua irmã no seu último filme, Secrets (1933). A MGM a convidou para o filme Red-Headed Woman, mas Clara não aceitou assinar um contrato e o papel coube para Jean Harlow, a nova sensação que viria a se tornar a vênus platinada dos anos 30. 

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O filme Mademoiselle Dinamite (Bombshell, Victor Fleming, 1933) foi supostamente baseado na vida caótica de Clara Bow como atriz. Mas o filme tinha paralelos com a própria Jean Harlow: foi explorada por familiares e tinha nove cachorros assim como no filme. Harlow e Bow haviam trabalhado juntas em The Saturday Night Kid, em 29. Victor Fleming, ex-amante de Clara, dirigiu Bombshell

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Do final dos anos 20 para começo dos 30 em diante, uma nova flapper na MGM entrava em cena, para virar uma das atrizes mais famosas da Golden Age: 
Joan Crawford


       Clara e Rex tiveram dois filhos: Tony e George. Com sua aposentadoria do cinema, Clara Bow abraçou a reclusão. Evitava ao máximo sair de casa e dar entrevistas. Por 6 anos, administraram juntos o The It Cafe no Hollywood Plaza, até seu fechamento em 1943. Rex Bell , com o apoio da esposa, ingressou na carreira de político pelo Partido Republicano, ocupando diversos cargos importantes em Nevada, incluindo Governador do Estado. A agenda cheia de Rex terminou por afastá-lo de Clara, que se sentia ressentida pelo suposto "descaso" do marido para com ela. Na verdade, o retiro de Clara não ajudou tanto no tratamento de atriz. Por ironia do destino, a It Girl sofria de transtornos psiquiátricos igual a sua mãe, porém sem a mesma gravidade. Chegou-se no diagnóstico de esquizofrenia. Clara criou muitos complexos por causa dos traumas que sofreu durante sua trajetória, e até o fim da vida teve de lidar com muitas crises, paranoia, mania de perseguição, depressão e até tentativa de suicídio. A nota da tentativa dizia que ela preferia "a morte do que uma vida pública". Para sua tristeza, a vida familiar e bucólica do Rancho Clarita não trouxe a paz de espírito que tanto procurava. 


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Clara Bow e Rex Bell com os filhos Tony e George através dos anos


     Com o crescimento dos filhos, foi se afastando deles devido aos problemas de saúde mental. Recusava sair de casa e a socializar com o marido, mas não permitia que ele a deixasse sozinha. Tentativas de se tratar se mostraram insuficientes. Em 1949, Clara entrou numa clínica psiquiátrica e reviveu muitos dos seus demônios de infância. Até a choques elétricos foi submetida. Antes que explicações psicológicas fossem feitas de fato sobre seu comportamento, Bow deixou a clínica e não voltou para sua família. Apesar de separados, o casal Bell nunca se separou formalmente. A partir desse momento até a sua morte, Clara Bow se refugiou em um bungalow em Culver City, sob os cuidados de uma enfermeira - sua única companhia até o fim dos dias. Recusava-se a socializar, só saía para fazer compras de Natal e olhe lá. Sua última performance pública foi em 1947 para um show de rádio. 


Clara em 1950, num registro raro pós-Hollywood. Apesar da saúde em declínio e problemas psiquiátricos, Clarinha ainda esbanjava graça e carisma. Em 1960, recebeu uma Estrela na Calçada da Fama

     Durante sua reclusão nos anos 50 e 60, ainda se correspondia com as pessoas, principalmente por telefone e carta. A fanmail ainda vinha e era devidamente respondida; os fãs que batiam em sua porta não a viam, mas a enfermeira intermediava entregando as fotos para Clara e devolvendo aos fãs devidamente autografadas "Clara Bow - It Girl de Hollywood". Questionada sobre o que era o tão falado "it", Clara nem sabia responder. Talvez nunca nem tenha entendido a comoção em torno de si mesma. Não tinha noção do impacto cultural da sua persona nem consciência do próprio talento. Apesar de apreciar o carinho dos fãs, ficava constrangida quando a reconheciam, mesmo décadas depois, e se afastava delicadamente de volta para sua casa, de onde quase nunca saía. Passou a mostrar desprezo pelo ser humano, dizendo que preferia os cães.


Fanmail que Clara Bow enviou para Marlon Brando em 1954, prestigiando o ator, comentando um pouco de sua vida e pedindo uma nova foto autografada. Ela brinca que o ator autografou a foto com "tinta invisível" (porque a assinatura desbotou). E o simples fato de andar de patins por Beverly Hills provocava uma comoção em torno de si, mas ela couldn't care less.


   Mantinha-se atualizada e antenada nas novas personalidades. Se pronunciou quando Marilyn faleceu, dizendo que simpatizava com M.M. e desabafou que "ser um sex symbol é um fardo muito cansativo e difícil de se carregar". Era também fã absoluta de Marlon Brando e ambos trocaram correspondência. Ficava feliz da vida ao receber fotos autografadas do ídolo. Era tão admiradora de Brando que, milagrosamente, saiu de casa para visitá-lo. O ator também admirava Clara e a recebeu com muito prazer - e autografou uma nova foto para a atriz. :-)


Marilyn como Clara Bow em ensaio fotográfico de Richard Avedon para a LIFE

Bow e Brando nos anos 50. Foto e carta cortesias do site starsandletters.blogspot

Rara aparição pública de Clara no enterro do marido Rex, em 1962. Apesar da emoção sincera durante o funeral, a atriz se sentiu traída quando descobriu que Bell deixou sua herança para os filhos, e nada diretamente para ela

     Infelizmente, quase 60 anos após seu falecimento, o nome de Clara Bow não é tão lembrado como deveria.  A babadeira Louise Brooks, em 1968, criticou o historiador de filmes Kevin Brownlow quando o cidadão esqueceu de mencionar Bow no seu livro sobre silent movies The Parade's Gone By. "Você esquece de Clara Bow por uma velha ninguém Brooks", disse a debochada Lulu de A Caixa de Pandora. Posteriormente, no documentário A Celebration of the American Silent Film, o historiador não só incluiu o nome de Clara como entrevistou Louise Brooks - a atriz considerava Mantrap, It e Dancing Mothers como filmes insuperáveis. 


Louise Brooks, a polêmica em pessoa. Em breve terá um post próprio, merecidamente


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 Berenice Bejo no filme O Artista (2011) - a personagem da atriz foi inspirada em Clara Bow (talvez um tanto também em Joan Crawford). Dentre outras referências, além do título de It Girl, Clara já foi interpretada por Jennifer Tilly em Return to Babylon (2013, abaixo) e citada numa música do Prince


Tilly como Clara Bow

     Espera-se que através desse singelo texto, o legado de Clarita tenha recebido o reconhecimento que tanto merece. 

Clara Bow faleceu em 27 de setembro de 1965, aos 60 anos, ao sofrer um ataque cardíaco. Cripta de Bow e Bell no Forest Lawn Memorial Park, em Glendale, California. A lápide marca 1907, apesar de 1905 ser considerada a data mais provável de nascimento de Clara

Apesar de todos os seus tormentos pessoais, Clara conseguiu transcender através da sua consagração no cinema. Pôde se reinventar como pessoa e mostrar ao público uma nova identidade feminina. Segundo Judith Mackrell, em seu livro Flappers: Six Women of a Dangerous Generation, a ascensão de Clara ao estrelato foi um dos elementos que a tornou tão emblemática nos anos 1920. "Em outra época, ela teria acabado nas ruas ou em uma fábrica, mas a existência do cinema como uma indústria de massas deu a ela a chance de reinventar sua vida". (fonte: BBC News). Clara foi a própria encarnação dos frenéticos anos 20, tanto na sua fúria de viver como também na sua tragédia. Para Lulu Brooks, Clara foi os anos 20!

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"Nós tivemos individualidade. Fazíamos o que queríamos. Ficamos acordados até tarde. Vestimos da maneira que queríamos. Eu costumava andar pela Sunset Boulevard em meu Kissel aberto, com vários cães Chow vermelhos para combinar com meu cabelo. Hoje, eles [os atores de hoje] são sensatos e acabam com uma saúde melhor. Mas nós nos divertimos mais." Clara Bow

Clara mostrou ser possível se reinventar como pessoa sem vender a alma ao Diabo; ser possível ir atrás de uma vida melhor, independente do meio onde nasceu e das condições adversas; ser possível conquistar as pessoas com o próprio carisma, sem artifícios e ainda estando fora dos padrões típicos do sistema; ser possível se divertir e viver o momento sem se importar com o que os outros pensavam, mesmo sendo a mulher mais famosa do pedaço e com tanto dinheiro que nem sabia o que fazer com ele - e nem se importava. No fim ela só queria ser feliz e ser amada. Não teve uma vida fácil, por demais agridoce, e teve um final solitário, mas com certeza podemos concluir que Clara foi, e ainda é, amada. 

Selo comemorativo de Clara Bow (autografado por Rue McClanahan, atriz de The Golden Girls)


Por fim, nas palavras da própria Clara Bow, eternamente jovem, aos 22 anos no auge de seu sucesso:

Eu moro no meu pequeno bangalô em Beverly Hills. Eu trabalho muito, muito duro. Eu gosto de jovens e alegria, e tenho muitas coisas ao meu redor sempre que tenho tempo. Eu gosto de nadar, andar de bicicleta e jogar tênis. Tenho alguns amigos íntimos, mas não muitos conhecidos. Eu não tenho tempo. Sou feliz - tão feliz quanto qualquer um que acredite que a vida não é digna de confiança. Dou tudo o que posso para meus filmes e o restante para ser jovem e tentar fazer meu pai feliz, e preencher as lacunas na minha educação. Eu não acho que sou muito diferente de qualquer outra garota - exceto que eu trabalho mais e sofri mais. E eu tenho cabelos ruivos. Em suma, acho que sou apenas Clara Bow. E Clara Bow é exatamente o que a vida a fez. Foi o que tentei lhe contar nesta história. Estou muito agradecida e ainda um pouco incrédula do meu sucesso. Parece um sonho. Mas - estou disposto a trabalhar tão duro como sempre para continuar tendo. Além disso, ainda não desenvolvi nenhum plano ou desejo. Afinal, eu ainda tenho apenas 22 anos. Isso não é tanta idade, não é?...

Clara Bow facts
Clara Bow e Helen Kane foram as inspirações da célebre Betty Boop - cortesia de factinate.com

Descanse em paz, Clarinha ♥

Com amor, 

Pedro

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