domingo, 1 de maio de 2016

Para Sempre Leila



Para ressuscitar esse blog com design feito no Paint, resolvi começar falando de uma das mulheres mais fascinantes que existiu nesse Brasil: Leila Diniz. Só seu nome, mesmo que falhe a memória ou até mesmo não se conheça, já desperta nosso imaginário. Não farei nenhum tratado, aliás a vida dessa mulher dá muitos livros (acabei de ler uma de suas biografias, então estou aproveitando o embalo), por isso apenas tentarei registrar um pouco minha grande admiração por essa mulher tão cheia de vida que sacudiu nosso país em plena ditadura e deu mais graça ao mundo com seu jeito adorável e revolucionário de ser.





Leila Roque Diniz nasceu no dia 25 de março de 1945 em Niterói. Eu tive meu primeiro contato com ela quando eu ainda era um pré-adolescente entusiasmado com novelas; a história da televisão me fascinava, e até hoje, mesmo preferindo os filmes e torcendo um pouco o nariz para a televisão atual, ainda gosto de ler sobre TV, principalmente as produções antigas. E quando eu ganhei o Almanaque da Tv Globo logo no começo já figurava Leila Diniz ali, mesmo que brevemente. Leila estrelou justamente a primeira novela da Tv Globo: Ilusões Perdidas (aparentemente, não tem nada a ver com o romance homônimo do Balzac rs). A Globo ainda estava no começo, bem baixo orçamento mesmo, e mal era transmitida diariamente. Leila fazia a vilã, um papel que fez até bem frequentemente; nessa vez, fazia par com um jovem e tímido galã Reginaldo Faria. 






Lembro que a achei muito bonita, e fiquei muito triste quando soube de sua morte logo aos 27 anos em um acidente de avião na Índia, pensando o quão aleatório e estúpido o destino podia ser. E mesmo nesses almanaques de televisão, eu sentia muita falta de mais informações sobre Leila, que teve uma carreira curta mas não menos importante na televisão, e foi uma das suas primeiras grandes musas. Decidi, anos mais tarde, me aprofundar mais nessa personalidade tão interessante lendo sua entrevista mais famosa: a d'O Pasquim feita em 1969, que bateu recorde de vendas e causou grande furor aqui no Brasil em plena ditadura, e até hoje é lembrada pela bela forma que Leila realmente se abre e fala de forma bem aberta sobre amor, sexo e muitos assuntos tabus. Leila falava muitos palavrões (coisa que na época era só coisa de homem, e se mulher falasse era ''prostituita'') , e devido a censura, os editores do jornal colocaram asteriscos no lugar dos palavrões, que eram tantos que a entrevista virou ''uma constelação''. Lá estava o mito Leila Diniz, sem maquiagem e de toalha enrolada na cabeça, gente como a gente, que aceitou a entrevistar justamente para ''falar tudo'' !


Ela pode ser lida aqui no link: http://www.omartelo.com/omartelo23/musas.html




Pensando hoje, eu diria que Leila é uma daquelas mulheres à frente não só de seu tempo, mas também de nosso próprio tempo. Muito mais do que apenas um sex symbol, ela não era de beleza extraordinária nem ''do padrão'', era um vulcão em erupção na própria alma, no seu jeito inocente e desbocado de ser autêntica e falar e fazer o que quisesse, além de uma simpatia enorme e um carisma impressionante. Eu questiono a nossa suposta modernidade, se avançamos realmente em muitas questões porque eu acho que ainda hoje, mesmo quase 50 anos depois dessa entrevista, se Leila ainda não seria julgada por suas afirmações como era na época. Como reagiriam os puritanos e os machistas com suas frases polêmicas até hoje como a épica ''Você pode estar apaixonado por uma pessoa e estar dormindo com outra. Já aconteceu comigo''. Lembro que pouco tempo atrás estavam julgando Betty Faria só porque ela foi de biquíni para a praia com 70 anos de idade. E daí? Por que a mulher tem que ficar se escondendo? Ou ficar restrita a padrões de beleza ou ideias repressoras? Leila não gostaria nada disso, aliás era muito amiga de Betty e as duas já polemizaram com um beijo no meio da praia, e a intensão delas era mesmo causar !

Sem falar que Leila sofreu na pele um problema parecido, até pior. Um de seus momentos mais marcantes, até na história do feminismo, foi quando ela estava grávida e resolveu ir à praia de biquíni, Pode parecer bobagem, mas nos anos 70 isso ainda era uma calamidade, e as mulheres grávidas tinham que esconder suas barrigas com um pano (!). Leila não via sentido nisso, pois em outros lugares já não tinha isso e a médica disse que o sol faria muito bem ao bebê, e assim foi Leila Diniz com sua barriga à mostra na praia, entrou no mar e mostrou toda sua alegria de viver e ser livre para todos que quisessem ver. Para Leila ela estava apenas vivendo sua vida, mas na verdade acontecia uma revolução personificada naquela moça que irradiava por todo o seu redor.




Sendo uma mulher solar, seu lar era a praia, tinha paixão pelo mar, nele sentia-se em paz consigo mesma e com o mundo; mesmo com ou sem sol, ia sempre à praia e se divertia muito com sua turma de amigos, na época costumava-se chamar de ''patota''. Gostava dos fãs e era sempre querida, mas a hora de tomar o seu sol era sagrada, queria estar em paz. Ao mesmo tempo que era alegre e divertida, tinha seus momentos de melancolia e tristeza, e todos os dias escrevia, desde poemas até vários diários, buscando a essência de si mesma por toda a vida. Desde a confusão típica da adolescência, Leila procurava intensamente se entender, ainda mais quando teve problemas em casa: descobriu que sua mãe na verdade era sua madrasta, e que sua verdadeira mãe era outra, o que mexeu muito com ela. E por muitos anos fez análise para conciliar toda aquele caos interior de uma jovem mulher louca para entender a si mesma e encontrar a paz interior. Ela queria se livrar do medo, das neuroses, das amarras da sociedade e de tudo que pudesse reprimi-la de seu desejo de amar e de ser feliz. Em seu diário, em 1970, Leila escreveu:

"Sou uma pessoa livre e em paz com o mundo. Conquistei a minha liberdade a duras penas, rompendo com as convenções que tolhiam os meus passos. Por isso, fui muitas vezes censurada, mas nunca vacilei, sempre fui em frente. Tudo que fiz me garantiu a paz e a tranquilidade que tenho hoje. Sou Leila Diniz."



Até no trabalho Leila prezava a diversão e escolhia os trabalhos boa parte das vezes por causa da patota, nesses casos sem nem cobrar cachê. Leila disse que não importava se interpretava Shakespeare ou Glória Magadan (a autora das novelas medievais), desde que se divertisse e ganhasse dinheiro com isso. Na verdade, ela caiu um tanto que de para-quedas na carreira de atriz. Antes da fama, Leila foi professora. Ela era apaixonada por crianças, e tinha opiniões muito avançadas sobre o ensino. Ela abolia a mesa do professor, falava de igual para igual com as crianças e fazia todos trocarem e dividirem os lanches uns com os outros, estando sempre próxima da roda de crianças, ensinando e se divertindo. Lia seriamente sobre uma forma de ensino melhor e mais eficiente, sem as convenções rígidas do sistema escolar. Mas logo seus métodos não convencionais chamaram a atenção dos pais e dos superiores, e Leila acabou deixando a sala de aula para tomar outros rumos. 


Começou como atriz ainda quando namorava o cineasta Domingos de Oliveira, ajudando nas peças dele, e ia conquistando sua independência trabalhando aqui e ali em figurações e anúncios de publicidade. Ela mesma dizia: "Não represento, não canto, não sou a mulher maravilhosa, não danço. O negócio é que eu faço as coisas gostando, e eu acho que isso passa para as pessoas e elas acabam gostando. Quando o negócio é muito verdade dentro de você, acaba passando". E Leila, mesmo brincalhona, era bastante profissional e muito séria na hora do trabalho. Fez apenas uma peça de teatro, logo com a grande estrela Cacilda Becker, mas Leila não curtia muito repetir a mesma coisa toda noite, e através da agência de modelos que trabalhava acabou indo parar na televisão, participando de novelas da Globo, Tupi e Excelsior. A fama na televisão veio mesmo na novela O Sheik de Agadir, onde contracenou com quem viraria sua melhor amiga: a atriz Marieta Severo. A novela foi um grande sucesso na época, e Marieta acabou sendo a grande assassina da trama, após meses de suspense sobre quem seria ''O Rato'' que matou quase todo o elenco da novela. Lembrando da grande amiga, Marieta lembra que ela escrevia lindas crônicas, recebia cartas de Leila sempre, mas quando se mudou uma vez acabou se desfazendo dos escritos. Depois da morte de Leila, Marieta agora diz: ''Se você me der um guardanapo, eu vou guardar''. Muitos dos diários de Leila estão com Marieta e também com a filha da atriz, Janaína. 



Outra novela que Leila fez foi Anastácia, a Mulher Sem Destino. Essa produção é lembrada pelo famoso truque de Janete Clair, novata na Globo, em causar um terremoto na história e matar quase todos os personagens, pois a novela estava um fiasco e tinha personagens demais. Leila fazia a famosa Anastásia , princesa russa que supostamente sobreviveu à revolução, e também fazia o papel da filha de Anastásia. Ironicamente, Leila acabou famosa em produções de época, de capa e espada, com princesas e masmorras, típicas da autora xarope Glória Magadan que ainda reinava na dramaturgia da Globo, e fazia personagens bem distantes da mulher moderna em pura ebulição que era na vida real. Em 1969 Janete Clair faria Véu de Noiva, novela que pegava a onda de Beto Rockfeller da Tv Tupi ao mostrar a realidade dos anos 60, pessoas do dia a dia na cidade grande, pessoas reais e mais próximas do público, ao contrário das novelas medievais que já perdiam a força. Véu de Noiva mostraria um Rio luminoso, com a efervescência dos anos 60. Quem melhor do que Leila, a musa de Ipanema, para participar? Infelizmente a Rede Globo, pressionada pelos militares que apoiava com sua mídia tendenciosa, não queria mais papo com Leila, que era alvo da ditadura por suas atitudes liberais, e uma fala que correu na época foi que ''não havia papel de puta na próxima novela''. Depois da novela A Rainha Louca em 1967, Leila não voltou a trabalhar na emissora. Faria algumas na Tv Rio (Acorrentados), Excelsior (Vidas em Conflito, Dez Vidas) e sua última na Tupi (E Nós, Aonde Vamos?). 


Devido a vários incêndios e gravações por cima de fitas antigas, não há registros filmados das novelas que Leila Diniz participou, havendo apenas algumas imagens. Colegas lembram o quanto Leila fazia amizade com todo o pessoal da equipe, sendo uma pioneira nesse aspecto, e mesmo com os vestidos pomposos de época Leila saía com o pessoal da equipe para tomar umas no bar. Andava sem sutiã e falava seus palavrões livremente, para o choque de Yoná Magalhães um dia em que Leila disse ''Caralho!'' e Yoná exclamou ''Mas o que é isso, Leila?!''. Leila, sempre com muito bom humor, respondeu: ''Ah Yoná, você sabe o que é sim, só não está relacionando o nome à pessoa''. 


 


Mas foi mesmo no cinema que Leila Diniz viveu o auge de sua carreira. Seu filme mais famoso é Todas as Mulheres do Mundo, de 1966, dirigido pelo seu então ex-namorado Domingos de Oliveira. O filme é puramente autobiográfico, ao contar a história de um playboy carioca mulherengo (interpretado aqui pelo grande e adorável Paulo José) que vive o dilema de amar todas as mulheres do mundo mas estar apaixonado por uma em especial: a professorinha Maria Alice, vivida por Leila. Ela já é comprometida, mas Paulo não desiste e tenta conquistá-la, e acaba conseguindo. Mas com o tempo Paulo tem dificuldade de se manter fiel, e Maria Alice ainda sente algo pelo ex-namorado. 




O próprio Domingos diz que o filme foi inspirado no próprio relacionamento dele com Leila, e muitos o leram como uma tentativa de Domingos para reconquistar Leila. Ele ainda estava apaixonado, e interrompia muitos takes para chorar. Porém Leila já estava em outra. Para mostrar que a vida nem sempre imita a arte, o final do filme foi feliz: apesar da traição de Paulo, ele e Maria Alice terminam juntos, se casam e têm vários filhos; ele tinha chegado à conclusão de que Maria Alice era todas as mulheres do mundo em uma só. E assim era Leila Diniz: todas as mulheres do mundo em uma só. Domingos e Leila continuaram amigos, e o filme foi um grande sucesso de crítica e público, garantindo para Leila menção honrosa no Festival de Brasília. O filme, visto hoje, continua delicioso e cheio de vida, com o frescor que está faltando nos filmes nacionais recentes. Claramente influenciado pela Nouvelle Vague, ele retrata muito bem as peripécias românticas cariocas dos anos 60. Domingos conseguiu captar como ninguém a essência de Leila. O filme talvez seja a melhor forma de conhecê-la realmente, e poder ver aquele seu Rio de Janeiro iluminado que já não existe mais. No Pasquim, a atriz disse que era seu papel favorito, pois tinha muita ternura e ligação com ele. 




Ainda dirigida por Domingos Oliveira e contracenando com Paulo José, seu colega favorito, fez também Edu Coração de Ouro no ano seguinte. Nele interpreta uma jovem serelepe de tranças igualzinha a ela mesma anos antes, a mesma Leila que Domingos conheceu e se apaixonou. No filme, ela recita um de seus poemas, que já foi musicado por Milton Nascimento:

Brigam Espanha e Holanda

Pelos direitos do mar

O mar é das gaivotas

Que nele sabem voar

O mar é das gaivotas

E de quem sabe navegar.



Brigam Espanha e Holanda

Pelos direitos do mar

Brigam Espanha e Holanda

Porque não sabem que o mar

É de quem o sabe amar.





Leila e Paulo trabalhariam mais uma vez juntos no filme O Homem Nu, de Roberto Santos baseado no conto de Fernando Sabino.



Outros filmes memoráveis de Leila foram: Mineirinho Vivo ou Morto, onde ela fazia a namorada do assaltante famoso Mineirinho que ficou eternizado pela crônica de Clarice Lispector; Fome de Amor, de Nelson Pereira dos Santos, que rendeu para Leila um de seus melhores papeis e ela proferiu a famosa frase ''Você nunca tomou banho de sol inteiramente nua?''; Mãos Vazias, do seu amigo Luiz Carlos Lacerda. seu último papel principal no cinema, que lhe rendeu prêmio de Melhor Atriz em festival de cinema da Austrália; além de outros filmes como A Madona de Cedro (com grande elenco de estrelas) e o ''psicodélico'' Azyllo Muito Louco.







Assistindo seus trabalhos, podemos ver que Leila transmitia muita verdade em tudo o que fazia. Na real, ela nunca pensou em ser uma ''grande atriz'', mas gostava muito do que fazia e era bastante dedicada. Teve uma carreira breve e provavelmente não pôde mostrar todo o seu potencial, mas passava muito sentimento com facilidade, era muito verdadeira na sua vida e também no seu trabalho. Já ficou gravada a sua imagem contagiante na tela do cinema para cativar nossos corações hoje e sempre. Desde filmes mais badalados como Todas as Mulheres até alguns não tão memoráveis, outros que ela mal aparece, todos são uma oportunidade de poder ter um contato com a eterna musa e ver sua vivacidade em movimento, um pouco de sua aura solar. Quase todos os filmes de Leila estão disponíveis no Youtube, para quem tiver interesse! Pelo menos Todas as Mulheres do Mundo está mais do que recomendado (filme nacional favorito da pessoa que vos escreve =)



A coisa mais legal da Leila é que ela não era de 'ismos'. Tanto é que nem a direita nem a esquerda e nem mesmo o feminismo estavam do lado dela: ela fazia sua revolução por si mesma, fazendo o que queria, dormindo com quem quisesse (mas não com qualquer um!). Viveu muitos conflitos intensos, uma revolução interior que acabou em uma revolução exterior em suas ações, até as mais simples e naturais, que acabavam questionando a sociedade tão conservadora que era, e ainda é, a brasileira.  Quando foi para o programa Quem Tem Medo da Verdade, Leila foi a um ''julgamento'' com vários jurados que estavam no programa justo para detonar os convidados, com os argumentos mais retrógrados e hipócritas possíveis. Os jurados não tiveram pena de Leila Diniz; no começo ela levou na brincadeira, mas as acusações foram ficando cada vez piores, todas como que tiradas de um manual de moralidade da Idade Média, atingindo seu ápice quando um dos jurados zombou do desejo de Leila de ser mãe, pois ''uma prostituta como ela não podia ousar pensar em ser mãe'', o que levou a atriz às lagrimas, e nem elas comoveram os jurados. No fim, Leila Diniz foi ''condenada'' no programa, e muitos concordavam com a sentença. Mas seu legado era muito maior do que a hipocrisia vigente. Sua imagem ficou forte justamente por ter muita sinceridade na sua fala e nos seus atos; ela se abria mesmo, e sofria as consequências por ser ela mesma. 




Mesmo tendo pouca participação política, Leila sempre acreditou na defesa da liberdade, acima de tudo. Sendo assim totalmente contra qualquer tipo de censura, e em 1968 foi às ruas na Passeata dos Cem Mil contra a censura e a ditadura militar de mãos dadas com Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara e Norma Bengell (foto abaixo, uma de minhas favoritas e de grande força e inspiração <3). 




Sendo assim tão liberal e contestadora, a ditadura militar viu em Leila uma ameaça ''à família e aos bons costumes''. Com o AI-5 e o governo de Médici, a repressão estava cada vez mais intensa. Na entrevista do Pasquim, Leila criticava a censura em filmes e novelas enquanto programas como os de Flavio Cavalcanti ( e muitos atuais) exploravam as pessoas e as tratavam como lixo. Talvez para pagar a língua, foi logo o apresentador Flávio Cavalcanti, mesmo notado como um grande reacionário, que acabou sendo um grande defensor da atriz quando ela integrou o banco de jurados de seu programa em 1970. Não era muito a praia dela, mas necessitada de dinheiro, Leila acabou aceitando participar do programa, e como ela dizia, ''cafuné eu quero até de macaco''. Em um momento, Flávio desafiou Leila a desfilar em plena Avenida Rio Branco, e a atriz topou. Literalmente, ela parou o trânsito!



Mas os milicos estavam de olho em Leila, e tinha sido a gota d'água. Por causa de sua entrevista no Pasquim, surgiu um decreto de censura na imprensa que acabou conhecido como Decreto Leila Diniz. Com a ajuda do cunhado advogado para livrar a sua barra, Leila acabou tendo que assinar um papel em que ela prometia não falar mais palavrões. Mas o pior mesmo foi quando, após o desfile na Rio Branco, queriam prender Leila Diniz, por ter ajudado militantes de esquerda (Leila abrigou muitos amigos perseguidos pelo governo em seu apartamento). Flávio ficou sabendo e instruiu ela para pedir para ir ao banheiro no meio do programa, já que esperavam o final do show para prendê-la. Assim, Leila provocou risos da plateia quando bem inocentemente pediu para ir fazer xixi, e saiu para nunca mais voltar ao show. De lá Leila trocou de roupa e foi levada para a casa de Flávio, conseguindo escapar da polícia até a poeira baixar. 


Leila tinha herdado do pai o amor pelo carnaval e pela música popular. Sempre amou o Carnaval, saindo inúmeras vezes em desfiles de escola de samba, até vestida de Carmen Miranda uma vez. Leila também conseguiu reinventar o teatro de revista com o show tropicalista Tem Banana na Banda. Conseguiu o título de Rainha das Vedetes entregue justo pela famosa vedete Virgínia Lane. E no carnaval de 1971 foi eleita a Rainha da Banda de Ipanema. Até abriu loja de roupa! (todos queriam se vestir da forma descolada e despojada de Leila). 



Foi em novembro de 1971 que Leila deu à luz a sua filha: Janaína, fruto de seu relacionamento com o cineasta Ruy Guerra. Foi uma grande alegria para ela, finalmente realizava seu grande sonho de ser mãe, e com ela iniciava uma nova fase da sua vida, que infelizmente seria interrompida meses depois.

"Queria ter um filho há dez anos e sempre me faltava coragem. Dava tremedeira, achava que não estava na hora. Mas, de repente, senti que o momento havia chegado. Pensei: é agora, ou então não dá mais pé. A Janaína foi mais do que planificada. Parei de tomar pílulas na época própria, cuidei do preparo físico e tudo o mais. Acho que essa receptividade faz bem à cuca da criança e à da gente. Ela vem como um ser desejado e, por outro lado, a gente está em ponto de bala para ser mãe".

 

Em 1972, surge o convite para participar de um festival de cinema na Austrália, levando seu filme Mãos Vazias. Leila já havia participado dos festivais de Cannes (com Azyllo Muito Louco) e de Berlim (com Fome de Amor), adorava, mas estava incerta de deixar sua filha pequena no Brasil. Leila estava um tanto em baixa, com dificuldades de achar emprego, e muitos a ignoravam por ela ser vista como subversiva pela ditadura. O cinema estava sem muitas ofertas, além dos trabalhos com a patota, e a televisão estava difícil: a Tupi estava passando por crises e viria a fechar anos depois; a Excelsior, que era contra o golpe militar, foi pressionada até falir e fechar suas portas; os colegas da Tv Record não queriam conversa com Leila; e a Globo apoiou a ditadura, mesmo antes de abrir a emissora Roberto Marinho com seu O Globo tinham apoiado o golpe (assim como a Rede Globo apóia o golpe de 2016) e o grupo americano Time financiou a fundação da emissora. E alegando ''razões morais'', o nome de Leila Diniz foi definitivamente vetado da casa, e no mesmo dia dessa decisão do canal que Leila resolveu fazer sua última viagem em vida para a Austrália, da qual jamais voltaria (com saudades da filha, Leila resolveu adiantar sua viagem de volta, sozinha, mas seu avião explodiu na Índia no dia 14 de agosto). Ela se emocionava em dizer que sentia estar numa nova fase de sua vida, como se de alguma forma previsse o que aconteceria. Ao mandar um postal para sua filha, Leila escreveu:

"Minha querida Janaina, hoje eu e meus amigos passeamos num lindo parque cheio de cangurus, coalas e outros bichinhos. Fiquei com uma vontade de ter você aqui comigo. Acho que daqui a dois anos nós vamos poder viajar juntas, conhecer os lugares mais lindos da Terra. Estou voltando logo, logo. Muitas saudades de você e do nosso querido Brasil. Beijo para você e para o seu paizão. Da mãe cangurua, Leila".


O país inteiro ficou de luto por Leila Diniz (Elis Regina até desmaiou no palco quando soube). Quando morreu, como esperado, virou santa e comoveu até os mesmos que a atiravam pedras. A hipócrita Rede Globo quis prestar homenagens para a atriz, mas foram todas recusadas. Nos anos 80, a vida de Leila foi levada às telas com Louise Cardoso a interpretando (muito bem, por sinal), junto com várias estrelas globais. Livros e documentários foram feitos sobre a vida de Leila, por enquanto a biografia que li e recomendo foi a da coleção Perfis Brasileiros: Leila Diniz, de Joaquim Ferreira dos Santos (com uma capa rosa). Foi uma leitura muito boa (li em quatro dias, o que é um recorde pois sou uma tartaruga pra ler qualquer coisa), mas com certeza ainda irei atrás de mais material sobre essa grande mulher. 





No fim, Leila Diniz não levantava bandeiras, era uma revolução simplesmente em ser ela mesma, suas únicas causas eram a liberdade e o direito de amar e ser feliz. Coisas que para ela eram normais e naturais a levaram a ser condenada muitas vezes. A direita a considerava uma depravada, a esquerda a achava uma alienada por falar de sexo abertamente, e até as feministas da época não iam com a cara da Leila , que mesmo sendo uma revolução feminina não cansava de dizer que gostava muito de homem sim. Ela falava palavrão abertamente quando apenas ''prostitutas'' o faziam, fazia questão de sair na rua sozinha quando isso era também ''coisa de prostituta'', saiu grávida na praia quando mulheres tinham que tapar a gravidez (foi chamada de vagabunda por isso) e por suas atitudes foi censurada e muitos não quiseram saber dela, inclusive a Rede Globo, onde argumentaram que ''não tinha papel de puta na próxima novela'', logo ela que era a pura alma de Ipanema e daquele Rio efervescente dos anos 60 e 70. Teve que assinar um papel que a proibia de falar palavrão, tentaram prendê-la e reprimi-la por vezes, mas nem sua morte aos 27 anos e o passar dos anos conseguiram apagar a luz dessa mulher solar e iluminada. Leila contestou a ditadura e o conservadorismo com seu jeito de ser totalmente à frente não só do tempo dela, mas de nosso tempo! Passados mais de quarenta anos, as lições de Leila continuam atualíssimas. Leila esperava chegar aos 100 maravilhosa, mas mesmo após 70 anos de seu nascimento continua mais viva e bela na nossa lembrança, e nas palavras de Drummond, após ''libertar mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão'' a moça continua a inspirar novas gerações de mulheres. Bela, recatada e do lar o (*). Bela, ousada e do mar, sim, toda mulher é meio Leila Diniz. 

"Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, amar, achar a verdade nas coisas que faz. Detesto o desespero e a fossa. Não morreria por nada nesse mundo porque gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria porque eu gosto mesmo é viver de amores".




Querida Leila, vou fazer que nem o Paulinho José e usar o mesmo verso do Manuel Bandeira pra dizer o que eu sinto por você, naquele poema Madrigal Melancólico: O que eu adoro em ti, É A VIDA !!!!! ♥



7 comentários:

  1. Pedro, que texto maravilhoso! Mesmo sendo conhecedora da obra da Leila, eu desconhecia muitas dessas informações. Sem dúvidas, uma das minhas atrizes favoritas de todos os tempos. ♥ Muito obrigada e parabéns!

    Beijos,
    Rafa

    www.imperioretro.blogspot.com

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    1. Rafa, querida, obrigado de coração pelas palavras, significam muito pra mim! Leila para sempre nossa amada ♥

      Beijões <3

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  2. E quase saiu um tratado mesmo!... Muito bom relembrar os passos todos dela. Vi um filme com ela no cinema: "O homem nu", a apocalíptica adaptação de Fernando Sabino feita por Roberto Santos em 1968. Você não citou o filme no texto, não sei se viu; corre atrás!

    E escreva mais!

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    1. Valeu, Filipe ! Agradeço o incentivo, vou escrever mais sim :) Pior que eu assisti e gostei de O Homem Nu mas esqueci de citar! rs Mas não vi no cinema, deve ter sido mt legal. Agora eu queria ler o texto do Sabino (do que eu li dele gostei muito)

      Abraço!

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    2. A crônica original tem só quatro páginas! Dá uma procurada, é ótima! Depois ele a abriu em textos maiores.

      E ainda não vi "Todas as mulheres do mundo", vou tentar fazê-lo esta semana!

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  3. Fiquei emocionada com seu belo texto! parabéns por apresentá-la a muitos, principalmente da sua geração, a maravilhosa Leila!

    bjo

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    1. Querida, muito obrigado pelo carinho! Espero que muitos ainda tenham o prazer de conhecer essa mulher. Beijões <3

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